Democracia, República e o vinho da casa

Em Portugal, a democracia é como o vinho da casa. Toda a gente confia, quase ninguém pergunta o que leva e raramente se devolve. Serve-se por defeito, bebe-se com tranquilidade e elogia-se com um aceno de cabeça. Quando alguém diz “isto é democracia”, normalmente quer dizer que está tudo tratado e que não vale a pena pedir a carta.

Convém, ainda assim, perguntar o que vem no copo.

A democracia portuguesa não é uma democracia total, nem direta, nem particularmente participativa. É uma democracia representativa. De quatro em quatro anos votamos, escolhemos quem nos representa no Parlamento e depois regressamos à nossa vida, com a sensação tranquila de que alguém ficou responsável pelo assunto. Governam em nosso nome, não connosco. O cidadão participa sobretudo por delegação, não por presença.

Não se trata de um defeito moral. É o modelo. Tem virtudes evidentes: estabilidade, previsibilidade e uma grande capacidade para manter o país a funcionar sem sobressaltos excessivos. Mas tem também um hábito curioso e persistente: dispensa quase sempre os referendos, sobretudo quando as decisões são importantes. As grandes opções estruturais........

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