Sete peças salvas, um convento perdido |
Como recentemente noticiado, a Câmara do Porto recolheu sete peças religiosas do demolido Convento de Francos (Rua da Travagem) para devolver à Congregação do Coração Imaculado de Maria, do Mosteiro de Bande (Paços de Ferreira): duas esculturas, uma delas em gesso identificada como sendo da autoria do escultor Henrique Moreira e presumível modelo da fachada. Salvaguardar estes fragmentos, como o brasão da Ordem do Carmo, é louvável, mas reage a uma demolição parcial já autorizada para um empreendimento privado de 15 fogos (lote vendido à Socibwana Imobiliária em 2020 e posto abaixo desde janeiro). Esta intervenção tardia simboliza uma tragédia consumada: resgatar apenas uma obra de Henrique Moreira, já pós-morte do escultor e sem o museu em sua honra tantas vezes anunciado, após a perda do contexto arquitetónico, não repara o essencial e dá asas a fenómenos como este.
Gestão reativa em vez de estratégica
O caso ilustra perfeitamente a necessidade de uma abordagem proativa à gestão do património cultural, como defendido no artigo homónimo: inventariar, classificar e integrar estes bens na planificação urbana antes da destruição. Abandonado desde 2001, o Convento de Francos, com a sua capela junto à estação de metro Francos, poderia ter sido recuperado, mas faltou investidor e visão pública. Em vez disso, prevaleceu a lógica imobiliária, com licenças do anterior mandato, transformando memória em “Porto Gardens” sem traços do original, incluindo as esculturas que definiram a sua identidade devocional.
O património não é um mero ornamento; é um alicerce democrático que une as comunidades e resiste à especulação; o argumento central da gestão estratégica na democracia. Aqui, a Câmara intervém tarde: salva fragmentos como a peça de Henrique Moreira, mas não impede a perda do refeitório, corredores e fachada integral. É a Economia do Esquecimento em ação, onde destruir criativamente significa apagar antes de valorizar.
O dilema português persiste
O episódio prolonga o alerta do assalto à Invicta sobre a erosão patrimonial no Porto sob pressão turística e construtora: edifícios devolutos viram entulho, não regeneração. Reforça também o dilema português de valorizar ou perder , que questiona por que escolhemos sempre a perda quando o património gera emprego, turismo sustentável e identidade, especialmente em crises económicas, como sustentado como o melhor investimento em tempo de crise. Investir em reabilitação rende mais do que demolições reativas: veja-se o exemplo dos Mosteiros da Batalha ou Alcobaça, modelos de rentabilização que preservam esculturas e azulejos intactos no seu contexto.
Mas a restituição das peças ao Mosteiro de Bande é positiva, mas simbólica, pois sem o convento, perde-se o sentido histórico e artístico que Henrique Moreira lhes conferiu.
Rumo a uma política patrimonial ambiciosa
Presicamos urgentemente de uma Lei de Salvaguarda Patrimonial que obrigue inventários prévios em loteamentos, incentivos fiscais à reabilitação privada e co-gestão entre Estado, autarquias e promotores, honrando criadores como Henrique Moreira cujo legado clama por protecção institucional. Classificar o Convento de Francos como de Interesse Municipal poderia tê-lo salvo, integrando-o na rede urbana. Caso contrário, as sete peças salvas são apenas o epitáfio de mais um esquecimento colectivo.
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