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O meu amigo Augusto Cid

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23.03.2019

O Augusto Cid deixou-nos na passada semana. Para muitos portugueses Augusto Cid foi um dos principais, senão o principal, cartoonista em Portugal depois do 25 de Abril. A objectividade e o humor dos seus desenhos, publicados em diferentes jornais como a Vida Mundial, o Diabo, o Independente, o Sol, assim como na TVI, eram inconfundíveis e tinham o mérito de nos fazer reflectir sobre o conceito do bem e do mal, e sobre os comportamentos humanos, seja quando revelavam mérito e deviam ser elogiados, seja quando eram reprováveis e deviam ser censurados. Este percurso talentoso como cartoonista iniciou-se nos EUA, onde frequentou o curso dos liceus, tendo depois passado a entregar os seus desenhos sobre política americana, a um pequeno jornal chamado “Laguna Beach”. Regressado a Portugal, e utilizando por regra os seus desenhos, publicou mais de trinta livros, entre 1975 e 2016.

Mas Augusto Cid notabilizou-se também como escultor, tanto de grandes como de pequenas obras, sempre marcadas por um pormenor e simbolismo cativante. Exemplos de esculturas suas encontra-se uma homenagem às vítimas do 11 de Setembro de 2001, colocada no cruzamento das avenidas de Roma com a dos Estados Unidos da América, em Lisboa, ou a estátua a Nuno Álvares Pereira, colocada na avenida Torre de Belém, em Lisboa, que foi inaugurada pelo Senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em 6 de Novembro de 2016. Devido à sua notável obra como cartoonista e escultor, foi homenageado como comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em 1994.

Essa foi a sua obra pública. Eu tive contudo a sorte de ser seu amigo, e dessa forma conhecer melhor o seu carácter e os valores que defendia. Conheci Augusto Cid em 1983, quando pediu para falar comigo. Sabia que, desde 1980, se dedicava a investigar o que verdadeiramente havia sucedido no desastre de Camarate, onde morreram Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, o meu irmão António Patrício Gouveia e mais quatro acompanhantes. Disse-me que as chamadas “investigações oficiais” não estavam a ser sérias nem rigorosas, tendo-me apresentado vários exemplos dessa realidade. Referiu-me também que se não fossem os familiares das vítimas a interessarem-se por este assunto, e a desenvolverem a sua própria investigação, existia um risco real de ficar para a história uma descrição falsa do que havia sucedido. Aceitei passar a participar nas........

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