O melhor dos fins do mundo possíveis |
A primeira imagem foi a de uma espécie de salvação: fila para ver um filme sobre Leibniz, num dos últimos cinemas de rua de Lisboa, às cinco e meia da tarde dum dia de semana. Talvez ainda nem tudo estivesse perdido afinal – o cinema, a cultura, o país, enfim, a Humanidade, dum modo geral. Sim, sim, de acordo que era a última hipótese para ver “Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida” e sabemos como nos pelamos por uma boa oportunidade de fazer o que quer que seja à última da hora. Mas caramba: para ver um filme alemão sobre um filósofo do século XVII? E as suas reflexões sobre arte? Numa tarde de sol, daquelas em que Lisboa é quase obscenamente bela, quando a cidade branca de Alain Tanner se torna dourada, azul, lilás, ao sabor dos dias que ainda crescem até ao solstício e da flor dos jacarandás que já cai? Com este requinte final para nos fazer amar este torrão onde tivemos a fortuna de nascer: a funcionária da sala vir cá fora anunciar à fila exasperada que estavam a retardar o início da sessão para que o maior número possível de pessoas não perdesse pitada. Confesso-lhe, amigo leitor: nem quando uma velhinha na coxia se arreliou comigo, um nazi do bom comportamento nas salas de cinema, por entrar na sala com a projecção já em andamento, se me arrefeceu o sorriso: aqui tens, velho Gottfried, o melhor dos mundos........