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O evangelho segundo os do costume

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Já deu, com certeza, por isso: a arte é a nova religião; os artistas os novos santos. Ninguém entra, ninguém pratica, ninguém lhes toca, mas basta o bispo querer mudar o padre ou a hora de missa e lá se põe a aldeia inteira a clamar heresia.

O pecado mortal desta semana (diz-se no adro da igreja) é que Saramago vai deixar de ser obrigatório nas escolas. Oh, o ultraje, o choque, o fascismo. Mais um passo rumo à inevitável ditadura, parte do mesmo grande plano obscuro que levou ao saneamento (nestas coisas, uma não recondução é sempre um saneamento ou, para ser mais fiel ao campo metafórico, uma excomunhão) de Rita Rato do Museu do Aljube e Francisco Francisco Frazão do Teatro do Bairro Alto. Como é possível? O nosso único Nobel da literatura! Bárbaros, selvagens, infiéis.

Podíamos começar por elaborar acerca das virtudes da “obrigatoriedade” no ensino. É ver como resultou maravilhosamente, ao longo de décadas, a tentativa de enfiar Os Maias ou Os Lusíadas pela goela abaixo de crianças e adolescentes e as gerações de queirosianos e especialistas em poesia épica que daí resultaram. Podíamos, justamente, lembrar que se, já antes, se retirou Camões, Eça, Vergílio Ferreira e outros, do cânone da “obrigatoriedade”, por que não chegaria a vez de Saramago, ele que, um dia, também inspirou o choque e o pavor quando, para entrar no panteão, obrigou à saída de outra vaca sagrada? Podíamos até, simplesmente, deter-nos no quão divertido é ver os grandes defensores da liberdade e flexibilidade no ensino baterem-se, afinal, pelas virtudes de um cânone mínimo obrigatório, um catecismo, um novo testamento de leituras sem as quais se imagina impossível a verdade e a iluminação.

Sucede, como verá qualquer um que se afaste um pouco da fogueira do fervor religioso, não ser nada disto que se passa. E o que é que se passa? Passa-se que o Ministério da Educação apresentou, como lhe compete, uma proposta de revisão das aprendizagens de Português. Dessa proposta constam, entre outras, ideias como garantir 60 minutos de leitura por dia aos alunos de Português do 12.º ano, o regresso de Camilo Castelo Branco à lista de leituras obrigatórias e a possível saída de Saramago das mesmas. Que não vos distraia o facto de as duas primeiras ideias serem mais relevantes do que a terceira. Ou sequer o pormenor de isto ser apenas uma proposta, submetida a consulta pública, aberta à discussão e aos contributos de todos, até 28 de Abril. Não. Isto é fascismo, saneamento, a Santa Inquisição outra vez a lançar-nos os livros para a fogueira.

E o que quererão dar a comer à juventude, em vez de São Saramago, estes novos-velhos polícias do pensamento? Certamente, algum escrito de António Ferro? Os Tempos de Transição, de Marcello Caetano? O Portugal e o Futuro, do Marechal Spínola, ao menos? Não. Mário de Carvalho. Estranhos métodos, os destes demónios. São ínvios, subtis, difíceis de ver ao olho destreinado. Mas às beatas mais atentas não enganam eles – era o que faltava.

Aliás, em bom rigor, o que a proposta diz é o seguinte: os professores que, actualmente, podem escolher entre Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, ambos de Saramago, vão passar a ter mais uma opção de leitura: Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho. Ninguém vai escorraçar o santo de Lanzarote. Fica lá tudo, simplesmente acrescenta-se mais. Dá-se três opções em vez de duas. Dois grandes escritores contemporâneos, em vez de um, por acaso ambos comunistas. O que é isto? Fascismo, só pode. Satanismo. Heresia. A barbárie.

Resta dizer o óbvio. Que “as Aprendizagens Essenciais”, conforme se lê no documento disponível online, “embora obrigatórias não limitam a possibilidade de aprender mais. (…) Deixam espaço para que cada escola e cada aluno possam aprofundar conteúdos e desenvolver competências adicionais” e “repercutir-se-ão no desenvolvimento de projetos de leitura autónoma e por prazer, que devem ter por referência as obras indicadas no Plano Nacional de Leitura.”

Vejam-me o atrevimento. Dar liberdade de escolha a professores e alunos. Deixar espaço para leituras autónomas e por prazer.

Se isto não são coisas do demo.

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