Não é em quem votamos. É porquê - e para quê

No artigo anterior escrevi que Portugal desaparece quando facilita. Não desaparece por falta de talento, de história ou de recursos. Desaparece quando escolhe sistematicamente o caminho que tranquiliza no presente, mesmo sabendo que fragiliza o futuro.

As eleições presidenciais de 2026 são a continuação direta dessa questão. Porque Portugal não está apenas a escolher um Presidente. Está a escolher como se vê a si próprio num mundo que mudou, e que já não espera.

Há quem vote para proteger o país do que vem aí.

Há quem vote para obrigar o país a assumir quem pode ser.

Esta distinção não é moral. Nem partidária. É antropológica e surge sempre que uma sociedade chega a um ponto de decisão histórica. Portugal está exatamente aí: suspenso entre o conforto do que conhece e a exigência do que ainda não ousou ser.

Portugal entra neste ciclo presidencial num mundo profundamente instável, e isso muda tudo. A guerra voltou à Europa. O sistema internacional fragmenta-se. A União Europeia debate-se entre aprofundamento e sobrevivência. A aceleração tecnológica desloca empregos, identidades e equilíbrios sociais. Em contextos assim, mesmo cargos constitucionalmente moderadores ganham peso simbólico acrescido. O Presidente passa a representar não apenas o Estado, mas a postura existencial do país perante o mundo.

As sondagens mostram um eleitorado dividido e uma provável segunda volta. Mas o dado essencial não está nos números.........

© Observador