A reforma laboral que não resolve nada

Portugal volta a discutir a lei laboral com o cansaço de quem já percorreu este caminho vezes demais. Há desconfiança automática, reflexos ideológicos gastos e um ruído permanente que impede a pergunta certa de emergir. Mas há momentos históricos em que o problema não é a falta de consenso. É a falta de clareza.

Porque, gostemos ou não, o tempo deixou de esperar. E o trabalho deixou de ser apenas um contrato. Tornou-se decisão geopolítica.

Quem legisla hoje não regula salários. Regula o futuro da espécie num continente à deriva.

A razão é simples e desconfortável: as leis laborais portuguesas foram desenhadas e sucessivamente remodeladas para um mundo que já não existe. Um mundo anterior à inteligência artificial aplicada ao trabalho, anterior à automação em larga escala, anterior ao teletrabalho generalizado, anterior ao colapso demográfico acelerado e anterior à competição global em tempo real por talento.

Continuar a remendá-las é pedir a um país do século XXI que funcione com um manual de instruções de 1995. É sobreviver por inércia – não disputar o futuro.

Por isso, a pergunta “devemos mudar a lei laboral?” já não faz sentido. Morreu antes de ser formulada. A pergunta real é outra – e é estrutural: mudar o quê, como, e para responder a que país?

Portugal não é apenas um pequeno país europeu. É um nó estratégico num mundo em reconfiguração. O Atlântico voltou ao centro da geopolítica militar, energética e digital e os cabos submarinos que passam por Portugal transportam uma parte decisiva do tráfego digital europeu.

São infraestruturas invisíveis, mas vitais.........

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