Uma paz inevitavelmente obscena |
Homero força narrativamente Ulisses a passar por um estreito guardado por dois monstros em lados opostos. Evitar um significava aproximar-se do outro. Cila: seis cabeças, três filas de dentes em cada uma, “grossos e cerrados, cheios da negra morte”, instalada numa rocha alta, rapta e devora marinheiros sem aviso. Caríbdis: um redemoinho que três vezes por dia engole o mar inteiro para depois o vomitar, fervilhando. Quem entra perde o navio e toda a tripulação. A morte colectiva é certa.
O herói da Odisseia é aconselhado por Circe a navegar mais perto de Cila e assim seis companheiros são devorados vivos neste sacrifício controlado. Ulisses aceitou que, em certos momentos, mesmo a melhor decisão conserva um custo brutal. Não saiu ileso, “foi a coisa mais terrível que vi com os olhos”, mas continuou vivo com os restantes marinheiros.
A Ucrânia continua encurralada neste estreito homérico, mas a questão não é apenas saber qual dos monstros é menos destrutivo. É saber se existe uma arquitectura diplomática capaz sequer de tornar a travessia possível, através da escolha de representantes eficazes e de mediadores reconhecidos.
Foi isso que aconteceu em 1993. Israel não reconhecia a OLP como interlocutor legítimo e falar abertamente com Yasser Arafat era politicamente impossível devido ao debate interminável sobre se os palestinianos tinham ou não representação válida. A solução foi o segredo. Os Acordos de Oslo avançaram porque a questão da representação foi temporariamente silenciada para permitir que o diálogo começasse antes de a bomba simbólica explodir.
Em 2015, o problema era o inverso. O acordo nuclear com o Irão só ganhou viabilidade dentro de uma representação formalizada como P5 1, ou seja, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha. Um formato cuja legitimidade era difícil de contestar sem pôr em causa a própria arquitectura da ordem internacional. Não foi o conteúdo que abriu caminho. Foi a geometria.
Por outras palavras, Oslo escondeu quem estava à mesa para que a mesa existisse. O acordo com o Irão expôs quem estava à mesa para que o acordo........