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Quem define o que é ser mulher?

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19.03.2026

A deputada federal Erika Hilton foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. Para quem não sabe, ela é a primeira transexual a ocupar esse espaço e, desde então, muitas polêmicas ocorreram, inclusive vindas de mulheres que não a consideram digna de representá-las. Diante desse fato, eu gostaria de discutir o que é ser mulher. 

Antes do domínio das tradições monoteístas, muitas religiões antigas tinham deusas. Acredita-se que nessa fase a sociedade fosse matriarcal. Autores como Johann Jakob Bachofen (1861) defenderam que sociedades pré-históricas europeias tinham uma forte presença feminina. Já na Grécia antiga, filósofos clássicos viam-nos como uma versão incompleta do homem. Para Aristóteles, a mulher era uma espécie de homem incompleto. Diante desse conceito, mulher era corpo; maternidade era destino; e o espaço feminino era a casa. A mulher era inferior ao homem, e uma mulher estéril era inferior às demais.

Já Simone de Beauvoir, na obra “O Segundo Sexo” (1949), afirma que não se nasce mulher, torna-se mulher. O que ela quer dizer com isso é que sexo pode ser biológico, mas o papel social de mulher é construído culturalmente pela educação, por expectativas sociais, papéis familiares e discursos culturais que vão sendo moldados e mudam em fases diferentes. Simone abriu caminho para o conceito de Judith Butler de que sexo é diferente de gênero. Para a filósofa, gênero não é algo fixo, é algo performado, produzido e reiterado socialmente.

Realizo todo esse percurso histórico para poder provar que o conceito de mulher sempre mudou. Já foi biológico, social, cultural, performático. Mas sempre foi objeto de disputa política e simbólica. Quando hoje alguém diz: “Você não é mulher”, na verdade está avaliando uma só perspectiva dentro de uma sociedade ampla. 

Quem tem o poder de definir o que é ser mulher? Qual conceito será usado? Quando nos reduzem a um útero (quando tantas mulheres que nascem com um precisam retirá-lo por doença, por exemplo, e ainda são mulheres), perdemos a oportunidade de entender que precisamos nos unir.

Na prática, enquanto houver um grupo que tem medo de ser morto por seus companheiros ou ex-namorados, enquanto houver um grupo com obrigações dentro e fora de casa, enquanto houver um grupo que recebe menos mesmo com igual ou maior tempo de estudo ou potencial, enquanto houver um grupo que é visto por outro como inferior e que tem seus corpos controlados, e enquanto esse grupo for chamado de “mulher”, eu entendo que quem faz parte desse grupo deve lutar junto. Se alguém tem a mesma dor que eu, só desejo que essa pessoa lute junto comigo por um futuro diferente para mim e para minha filha. Especialmente em um país que nos mata frequentemente. 

O que eu quero é que todas sejamos pontes para que o mundo seja menos cruel conosco, para que possamos viver em paz, com segurança e com direito de escolher nosso futuro.

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