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Os ovos da serpente

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friday

Como num passe de mágica, o Plano Real eliminou a inflação logo na largada. Diante de tamanha novidade, Mario Henrique Simonsen publicou, em 1995, o seu “30 Anos de Indexação”. Ali, deixava o alerta: havia quem temesse que o ovo da serpente permanecesse em hibernação e que, a qualquer choque inflacionário, a correção monetária renascesse, impávida e furiosa. Quando o Real completou três décadas, escrevi “A Extração do Ovo da Serpente no Plano Real” (2024), detalhando a complexa transição da indexação para a livre negociação salarial.

Ocorre que o temor da correção monetária ainda persiste. Não mais nos salários do setor privado, mas entranhado no Orçamento da União. O ovo da serpente agora hiberna nas vinculações às receitas e nas indexações à inflação, nas emendas parlamentares impositivas e na fresta dos reajustes do setor público acima da inflação. O monstro não morreu; apenas mudou de ninho. Inspirado pelo alerta do professor Simonsen, vejo hoje ninhadas inteiras de ovos de serpente espalhadas pela política brasileira. Cito apenas dois exemplos emblemáticos.

Na primeira eleição presidencial pós-ditadura, Fernando Collor surgiu como o outsider de conveniência. Centrou sua campanha no combate a “tudo que aí está”, prometendo abertura comercial e caça aos marajás. Ali, chocaram-se os primeiros ovos do populismo de direita, que faz do desmonte do Estado sua bandeira e da violência sua estratégia – o DNA que, anos depois, viria a parir o bolsonarismo.

Já no governo FHC, o pecado capital foi a reeleição. A medida politizou a gestão de tal forma que o projeto de permanência no poder passou a ocupar a agenda presidencial desde o primeiro dia de mandato, seja para a continuidade do presidente no posto, seja para a manutenção de seu grupo político. Resultado: demos adeus às políticas de longo prazo em favor do imediatismo eleitoreiro.

Em um sistema multipartidário, o partido do presidente não tem maioria para governar, deixando-o refém de alianças e composições cujas bases não são programáticas, mas práticas, envolvendo cargos, verbas públicas e “outras cositas más”. Como chuvas de verão, duram pouco e fazem muitos estragos. Mais do que fontes de estabilidade, são prenúncios de crises.

No período pós-abertura, dois presidentes sofreram impeachment (Fernando Collor e Dilma Rousseff), e quatro foram presos (Fernando Collor, Michel Temer, Lula e Bolsonaro), por crimes diversos. Dos oito ocupantes do Palácio da Alvorada, apenas três (José Sarney, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso) passaram ilesos.

Hoje, os ovos envenenados da serpente seguem espalhados na lama suja dos porões dos processos eleitorais. Ao chocarem, consomem o Orçamento da União, destroem a ética, aniquilam bons propósitos e reproduzem os hábitos mais nocivos e perversos da nova, velha e incorrigível má política. Como extrair da política esses ovos de serpente?, perguntaria Shakespeare.

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