Observador inofensivo
Gosto de multidões e muitas vezes entro em aglomerações de propósito apenas para exercitar meu hábito de observador. Vou caminhando entre os bípedes humanoides, devagar, fixando-os em seus olhos. Devem me achar um louco, um maníaco, algo parecido, mas nem me importo.
Assim, prossigo imaginando de onde vêm, quantos anos terão, que sonhos alimentam. Têm irmãos? Sofrem de angústias inexplicáveis ou de cálculos renais? Já foram casados? Estão estudando para um concurso público? Aquele tem viagem marcada para a Espanha e saiu de casa apenas para comprar mais uma mala?
As multidões me despertam este tipo de sentimento, por atacado, exigindo raciocínio rápido na suposição de cada história. Porém, na maioria das vezes, pratico meu hábito no modo normal, light, quando me assento num banco de jardim fingindo ler, por exemplo. O casal que passa, de shorts, praticando corrida, suarento e apressado. Serão fiéis um ao outro ou o homem tem um caso com a colega de trabalho? O velho de terno, gravata e chapéu, me dirige um........
