Casal que ora junto

Você ama alguém quando não imagina mais a vida sem aquela pessoa.

Sua saudade é provocada pela finitude. Você não tolera a simples ideia de que seu par morra antes de você.

Sinto isso pela Beatriz, a ponto de ser egoísta e desejar que eu parta primeiro para não enfrentar o tormento de sua falta. O luto seria uma implacável imolação.

Jamais cogitei experimentar tamanho sentimento contraditório. Até porque espero que tenhamos uma longa velhice na companhia um do outro.

Mas ela é tão importante para mim — uma referência solar e clara da minha esperança, um incentivo consolidado da minha coragem — que dispara o gatilho de uma das minhas raras crises de consciência. Eu me abalo com o meu medo de tal maneira que a lágrima e o suor brotam, gêmeos, do mesmo sal.

Nesses momentos, não consigo dormir com o pensamento perturbador de uma despedida abrupta e irreversível, e desço da cama para a prece:

— Preserve Beatriz! Se for para levar um dos dois, que seja eu.

Ao voltar a conversar com Deus, em aflita quietude, com a voz interior mais alta do que qualquer som próximo de mim, eu percebi que fazia tempo que não me prostrava ao divino. Não escutamos mais o nosso interior, pois não paramos mais.

Desaprendemos a orar. Talvez corresponda ao período histórico em que menos acreditamos em Deus. Não há mais silêncio em nossa rotina. Somos incompetentes para a trégua.

Nossa média diária de uso do celular é de nove horas. Entramos ali de cinco em cinco minutos, por pura questão de hábito, de reflexo, sem necessidade alguma.

A hiperatividade com o supérfluo nos distrai de nossos ideais. Você deve estar sempre atento ao que os demais postam, não se desligar de nenhum fato ou fofoca, executar duas ou três tarefas simultaneamente. Assim, nega o poder do capricho e do foco, sequer se lembra do que acabou de realizar. Mostra-se um extraviado contumaz da linha cronológica, repetindo padrões de comportamento.

Se descontarmos as sete horas de sono, sobram oito horas de lucidez. A virtualidade, de modo inédito, vence a realidade. Sofremos todos do Alzheimer digital, acometidos de desinteresse à nossa própria memória, tornando-nos mais facilmente manipuláveis e influenciáveis.

Tudo é barulho, ruído, dispersão de imagens. Não há mais brecha para se conectar ao ciciar da mata, às rotações do rio, aos piares dos pássaros, à floração das árvores, à mudança dos ventos. A natureza tem a nossa completa alienação, o que nos impede de cultivar a nossa fé, de nos recolher um pouco para agradecer, de celebrar as presenças dos familiares e amigos.

Somos capazes de passar um dia inteiro sem reparar no mundo exterior nem desenvolver condições de calmaria para nos enraizar em nosso lugar e para uma experiência sensorial de introspecção. Nossos olhos, saturados de redes sociais, estão consumindo nossos ouvidos.

Reduzimo-nos a avatares sem o espaço da interação emocional, da doação psicológica, do mergulho off-line das pausas.

Certa vez, Beatriz despertou com a minha ausência e me viu ajoelhado.

Não estranhou. Levantou-se e se pôs, mansamente, ao meu lado. As almas se tocavam pelos dedos. Mal ela sabia que eu orava por ela.

Afortunado o casal que se ama rezando junto.

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