Supino Manuel Serra d’Aire
Depois das poeiras do norte de África e do algodão que cai das árvores e que torna o ar irrespirável tenho estado à espera que cheguem as pragas de gafanhotos e sapos a cair do céu. Enquanto essas maldições não se cumprem vou acompanhando com indisfarçável interesse o desempenho da nossa classe autárquica que revela uma imaginação que nunca é de mais valorizar. É o caso do presidente da Junta de Mouriscas, em Abrantes, homem empreendedor e aparentemente incompreendido pelas autoridades, que vai a julgamento, supostamente por se apropriar de alguns milhares de euros. Segundo a acusação do Ministério Público, o autarca socialista, que está suspenso de funções, usou o cartão bancário da junta para levantar dinheiro, comprar ferramentas e alimentos, apropriou-se do dinheiro de venda de sucatas, usou as contas da junta para pagar reparações no seu jipe e meter combustível e até mandou abater bens aos registos da junta para os levar para casa - como um calorífero a lenha, um telemóvel Iphone ou uma máquina de cortar relva - onde obviamente ficaram resguardados das más intenções dos amigos do alheio.
Na minha opinião, o espírito de iniciativa de alguns dos nossos autarcas não tem merecido a devida compreensão e complacência do Ministério Público que, eventualmente desfasado da realidade em que vivem muitos portugueses, não terá noção das necessidades por que este povo passa. Aliás, também numa freguesia do vizinho concelho de Sardoal aconteceu caso semelhante, aí com o ex-secretário da Junta de Freguesia de Santiago de Montalegre a aliviar a autarquia de 135 mil euros para supostamente ajudar duas empresas do patrão pagando contas e fazendo transferências para reforço da tesouraria com o dinheiro da autarquia. Um caso exemplar de altruísmo e de amor à empresa, com a injecção de dinheiro público na iniciativa privada. Houvesse mais como ele e outro galo cantaria na nossa economia.
Atento Manuel Serra d’Aire, o associativismo é um bem sobrevalorizado no nosso país. Supostamente, esse devia ser um universo onde todos remam para o mesmo lado, na maior das harmonias, em torno do bem comum. Só que, vai-se a ver, e a antítese parece ganhar mais força do que a tese: há muita gente a confundir o bem comum com o bem dela própria. E basta ver o que se passa em algumas associações humanitárias de bombeiros voluntários para perceber que o conceito de guerra civil continua muito popular entre nós. E até a outrora pacificada Associação Empresarial da Região de Santarém – Nersant anda num ambiente de claque de futebol. Perante esta realidade começo a dar alguma razão ao regime ditatorial salazarista que não gostava de grandes ajuntamentos. É que quando se juntam mais de dois ou três portugueses é certo e sabido que, mais tarde ou mais cedo, já ninguém se entende e acaba tudo à batatada.
Saudações abrilinas do
Serafim das Neves

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A falácia do associativismo e o altruísmo autárquico ao serviço da economia

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10.04.2024

Supino Manuel Serra d’Aire
Depois das poeiras do norte de África e do algodão que cai das árvores e que torna o ar irrespirável tenho estado à espera que cheguem as pragas de gafanhotos e sapos a cair do céu. Enquanto essas maldições não se cumprem vou acompanhando com indisfarçável interesse o desempenho da nossa classe autárquica que revela uma imaginação que nunca é de mais valorizar. É o caso do presidente da Junta de Mouriscas, em Abrantes, homem empreendedor e aparentemente incompreendido pelas autoridades, que vai a julgamento, supostamente por se apropriar de alguns milhares de euros. Segundo a acusação do Ministério Público, o autarca socialista, que está suspenso de funções, usou o cartão bancário........

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