Março nas repartições: flores não mudam cultura |
Março chega com homenagens. Mas no serviço público, se não chegar acompanhado de revisão de práticas, vira só protocolo social. Escrevo como servidor e colega de trabalho de muitas mulheres também servidoras — não para falar em nome delas, mas para tratar de algo que diz respeito à qualidade do Estado: um ambiente que exige desempenho, mas cobra das mulheres um “pedágio invisível” para permanecer e avançar.
O problema raramente se apresenta como frase machista. Ele aparece na rotina: reuniões no fim do dia — “porque é quando dá”; a demanda de última hora tratada como teste de lealdade; a ironia quando alguém precisa buscar filho; a expectativa de que a servidora “organize”, “acalme”, “segure o clima” — além de entregar resultado. Em áreas de atendimento, fiscalização, saúde e assistência, soma-se a exposição a conflito, pressão do público e risco, muitas vezes sem suporte proporcional. A máquina pública produz desigualdade quando transforma disponibilidade total em mérito e trata cuidado como obstáculo individual.