A degradação e a descredibilização a que vimos assistindo no seio do governo português não têm paralelo na nossa cultura democrática, com o avolumar de situações que há muito extravasaram os limites da decência e que implicariam, da parte de quem é investido em tão nobres funções, outra cultura de responsabilidade, de sentido de Estado e de compromisso público com o povo. O país, ancorado no desempenho do turismo e na cobrança de impostos, parece ter encontrado um seguro de vida naqueles que nos visitam, enquanto descura os que nele nascem.

Que Portugal é este que dá um curso aos seus jovens, mas que depois desperdiça este conhecimento qualificado, sendo que, no último ano, viu mais de 7% dos seus licenciados procurarem oportunidades de vida noutros países?

Para onde caminha este país, quando a carga fiscal atingiu um máximo histórico, em 2022, de 36,4%, o 5.º maior esforço fiscal da UE, 17% acima da média, dando origem ao galopar das desigualdades sociais, ao êxodo dos mais qualificados, à saída de empresas, ao chocante crescimento da economia paralela, corrosiva de todo um estado social?

Para onde caminhamos num Estado que assiste, há largos meses, à paralisação dos tribunais, que agudizam com falta de magistrados, oficiais de justiça e de recursos materiais para assegurar as mínimas condições de funcionamento, bloqueando económica e administrativamente o país?

Que governo é este que, apesar de estar a cobrar mais impostos, recebendo por isso mais receita, e onde a economia paralela chegou aos 34% do PIB, revela uma ineficiência atroz na afetação destes recursos, permitindo a paralisação de hospitais, centros de saúde, tribunais e escolas, por via da desvalorização das classes médicas, judiciais e dos docentes, pela rutura permitida de recursos materiais essenciais ao funcionamento mínimo daquelas unidades?

Tudo isto acontece num país que, perante uma oportunidade de ouro para proceder a reformas estruturais, para se modernizar, para se refundar - que lhe foi concedido pela UE, através do PRR – revela não ter a coragem, a competência, a eficácia e a ousadia que é exigida a quem governa nestes momentos cruciais. 2025 não é um prazo exequível nem realista para concluir a aplicação de mais de 22 mil milhões de euros, montante que o PRR tem afeto a Portugal, ainda mais quando persistimos em viver num país hiperburocratizado, em que executar com celeridade obriga a um esforço hercúleo, esbarrando no excesso de regulamentação e de formalismos, geradores de pequenos poderes, numa complexidade e morosidade incompreensíveis.

Há anos que parecemos padecer de uma “síndrome de esquerda”, sem coragem para as reformas estruturais de que o país precisa, sem nos preocuparmos com as pessoas, mas apenas com o perpetuar do poder para os próprios, custe o que custar, enfraquecendo, estrangulando, amedrontando aqueles a quem devia servir.

Passam os dias e Portugal encontra-se cada vez mais para trás, cada vez mais na cauda da Europa. Não é isto que os portugueses querem e merecem.

Na Madeira, a História regista sabermos as diferenças dos tipos de governação entre a Região e o Continente. A realidade cá é outra, como veremos a 24 de setembro. Os madeirenses e porto-santenses sabem de tudo quanto temos feito ao longo de mais de 40 anos para transformar um arquipélago pobre, isolado, negligenciado pelo próprio Estado, na Madeira desenvolvida e em constante progresso em que hoje vivemos, e que a todos nos orgulha.

QOSHE - O burnout governativo de Portugal - Pedro Calado
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O burnout governativo de Portugal

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16.09.2023

A degradação e a descredibilização a que vimos assistindo no seio do governo português não têm paralelo na nossa cultura democrática, com o avolumar de situações que há muito extravasaram os limites da decência e que implicariam, da parte de quem é investido em tão nobres funções, outra cultura de responsabilidade, de sentido de Estado e de compromisso público com o povo. O país, ancorado no desempenho do turismo e na cobrança de impostos, parece ter encontrado um seguro de vida naqueles que nos visitam, enquanto descura os que nele nascem.

Que Portugal é este que dá um curso aos seus jovens, mas que depois desperdiça este conhecimento qualificado, sendo que, no último ano, viu mais de 7% dos seus licenciados procurarem oportunidades de vida noutros países?

Para onde caminha este país, quando a carga fiscal atingiu um máximo histórico, em 2022,........

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