A crise financeira de 2008 mostrou-nos a dura realidade da Europa a várias velocidades. Todos sofreram, mas uns penaram muito mais do que outros. Todos saíram da crise, mas uns mais bem preparados para a próxima do outros. E sim, alguns – como Portugal – estavam tão embriagados em frases como “as dívidas não são para pagar, são para gerir” que, quando a música parou, tinha um resgate sentado na última cadeira. A Grécia passou pelo mesmo, a Espanha também (ainda que não o tenha admitido), por isso não estivemos sós. O que trouxe algum conforto aos mais impiedosos.

Depois saímos do programa da troika, graças a um gigante aperto e um trabalho notável feito pelo povo português, e vieram os anos do dinheiro abundante e barato, taxas de juro nos mínimos, níveis de inflação irrelevantes. A Europa a várias velocidades nota-se menos nos anos de bonança. Também se nota menos quando uma pandemia pára tudo: quando não há velocidade para ninguém, não se nota tanto quem é mais lento.

Mas esses são anos para aprender com os bons e maus exemplos, amealhar, mudar de vida, limitar excessos desnecessários e enfocar a economia no essencial. Uma lição que não é só para os governos, é também para as famílias.

Agora, a Europa está outra vez a “flirtar” com uma crise e as várias velocidades do complexo sistema comunitário deixam claro quem não treinou com afinco, ou seja, quem está a perder o pelotão de vista.

A advogada Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, anunciou na quinta-feira o décimo aumento consecutivo das taxas de juro, mais 25 pontos base. Deixou claro que nem quer falar em “pico” – portanto recusa-se a falar em ponto de descida – e pouco depois até completou: até, pelo menos, abril não vai haver cortes nas taxas, atualmente em valores historicamente altos.

Este cenário é particularmente penalizador para as famílias portuguesas, que – na sua grande maioria – ou já comprou ou quer comprar casa (porque o arrendamento em Portugal é uma anedota de mau gosto) e, pior ainda, porque essa aquisição foi através de um crédito com taxa variável indexada à Euribor. Para estas famílias faz todo o sentido existirem apoios específicos para mitigar esta situação.

São estas famílias que entendem cada vez menos como é que Lagarde lhes aumenta a prestação de casa de forma brutal e, no espaço de poucas frases, diz aos governos para irem começando a reduzir os apoios. E com um “senão” no fim.

Ora leia: “Isto [a retirada de apoios] é essencial para evitar o aumento das pressões inflacionistas a médio prazo, que, de outro modo, exigiriam uma reação ainda mais forte da política monetária”, disse Christine Lagarde.

Realmente, quando se vive a alta velocidade, nem se percebe quem se está a atropelar.

QOSHE - Lagarde rima com alta velocidade - Nuno Vinha
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Lagarde rima com alta velocidade

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16.09.2023

A crise financeira de 2008 mostrou-nos a dura realidade da Europa a várias velocidades. Todos sofreram, mas uns penaram muito mais do que outros. Todos saíram da crise, mas uns mais bem preparados para a próxima do outros. E sim, alguns – como Portugal – estavam tão embriagados em frases como “as dívidas não são para pagar, são para gerir” que, quando a música parou, tinha um resgate sentado na última cadeira. A Grécia passou pelo mesmo, a Espanha também (ainda que não o tenha admitido), por isso não estivemos sós. O que trouxe algum conforto aos mais impiedosos.

Depois saímos do programa da troika, graças a um gigante aperto e um trabalho notável feito pelo povo português, e........

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