As cinco depressões do nosso descontentamento - carlos paiva |
O interesse do homem pelos movimentos e ciclos astrais é milenar. Por todo o planeta, monumentos e descobertas arqueológicas revelam esse interesse. Primariamente motivados pela passagem das estações do ano, ciclo do qual dependia o sucesso da agricultura, vital para a sobrevivência, até outras previsões, mais ligadas à superstição, embora calculadas por uma protociência baseada essencialmente no registo de acontecimentos coincidentes, por vezes justificados por vezes casuais, retiravam-se interpretações dos tempos por vir. Eventualmente formando credos e cultos que evoluíram para o formato da religião organizada.
Saber, representa poder. Reis elevaram-se, faraós caíram, ora por "adivinharem" eclipses solares e lunares com exactidão, ora por falhar em prever anos de seca extrema. As cheias anuais do Nilo eram vitais tanto pela água doce, como pela fertilização dos solos com os sedimentos arrastados de outras paragens pela corrente. Falhando o ciclo, haveria fome doença miséria. O reino ficava fraco, exposto à cobiça de outros, caía.
As cheias do Tejo, rio que nasce em território espanhol, tiveram exactamente o mesmo protagonismo funcional para a vida agrícola do Ribatejo, entretanto divorciada dos ciclos naturais por pressões económicas, não tanto pela necessidade de consumo dos bens alimentares ali produzidos. As cheias na planície aluvial do Mondego, rio que nasce em território português, encaixam em ciclos idênticos de fertilização dos solos.
Na realidade, o aproveitamento político dos ciclos naturais e de eventuais soluços disruptivos com os quais a imprevisibilidade da natureza ocasionalmente nos reduz à nossa insignificância, é milenar. O aproveitamento político, ora reforçando o poder instituído, ora determinando a sua queda, ora via superstição, ora via conhecimento científico, é um facto comum na história da humanidade. Não deveria ser surpresa. Dá nojo, mas não surpreende.
Enquanto os idiotas que nos governam proferiam frases insultuosas desprovidas de senso, exibindo escandalosamente na comunicação social a sua ignorância e incompetência com o orgulho de quem cometeu uma asneira monumental à vista de todos mas ainda não deu por isso, a sociedade civil mexeu-se. Fez o que estava ao seu alcance para ajudar quem necessitava de ajuda.
Voluntários apareceram sem ser chamados, de pá e vassoura na mão e ajudaram a limpar o lixo, a desimpedir as vias permitindo a circulação. Anónimos foram ao supermercado depois de saírem do trabalho, encheram o carro com os bens que o bom senso lhes dizia serem precisos e puseram-se a caminho das localidades mais afectadas. Gente que se viu obrigada a fazer 100 quilómetros para comprar combustível, quando chegava à caixa da estação de serviço para pagar, descobria que a despesa já estava paga. Por alguém que, entretanto, se........