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Isabel e a poesia

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15.09.2021

Em 2007, quando a redação do SOL ainda era na Baixa de Lisboa, na rua de S. Nicolau, apareceu-me um dia uma senhora baixinha, bonita, com uns admiráveis olhos verdes, aparentando já uma idade respeitável, que vinha propor um projeto para o jornal. Tratava-se da publicação de cartas de amor de figuras célebres da História.

Aceitei. Não só pela ideia, confesso, mas pela pessoa da proponente. Da mulher que se propunha selecioná-las e organizá-las. Chamava-se Isabel da Nóbrega e era uma escritora conhecida e reconhecida, reputada, sensível.

Desde esse dia, vinha todas as semanas ao meu gabinete no dia estipulado entregar-me uma ‘carta de amor’ de uma personagem histórica, quase sempre estrangeira. Depois sentava-se e ficávamos uns minutos a conversar. Contou-me episódios da sua vida muito recheada. Falou-me de Saramago, com quem tinha vivido. Percebi que fora uma relação forte mas com momentos difíceis.

Por mero acaso, eu tinha testemunhado um deles, uns bons anos antes.

Pouco depois do 25 de Abril, num restaurante na zona de Picoas, onde era o ateliê onde eu trabalhava, fiquei numa mesa próxima de outra onde se sentava um casal. O homem era José Saramago, que reconheci facilmente; mas a senhora era-me desconhecida. O que se passou a seguir entre os dois impressionou-me fortemente. Saramago falava com a senhora em termos ríspidos, como se lhe ralhasse, e ela chorava. Mas ele........

© Jornal SOL


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