O Fólio e a política dos festivais literários
Corre pelos arredores de Óbidos o rumor de que os habitantes do interior das muralhas, se não são loucos, acabarão por enlouquecer. Certo é que, para uma vila tão pequena, a quantidade de tontos, de retardados, dos que chamamos, sem nenhum desdém, anormais, é muito maior do que nas cercanias. Estas figuras extravagantes fazem recados aos comerciantes e pairam pelas ruas como as últimas pessoas livres do vilarejo. Se os tirarmos de cena sobra apenas a muralha ocupada pelas térmitas do comércio. Um centro comercial ao ar livre abalroado por um aluvião de turistas. Estes, andam num passo exaltado a alisar pedras, a embaciar os olhos e a alimentar quatro ou cinco proprietários que detêm o monopólio dos negócios. Os livros entraram na vila para ocupar uma Igreja abandonada, mas o espírito empreendedor, que fora convidado para o fazer, vinha entusiasmado, cheio de tesão, com ânsias de refazer ali um lugar perdido em Gales, e propôs-se a ter não uma mas cinco livrarias na pequena vila onde ninguém morava. O festival nasce desta espontaneidade bulldozer num lugar raptado pela divindade do comércio.
Talvez um gesto de resistência não sobreviva sem cedências, sem se disfarçar de traficante, mas, um bom traficante não se esquece da verdade do que põe a circular. Aqui passa-se o livro com demasiada veneração, como se a sabedoria nos chegasse por contágio: andam nas malas, nos bolsos e nos sovacos, como um cartão de identidade no rosto do ignorante. A cultura da imagem mantém-nos alheados do possível, da corrente que nos levaria a outra margem. Quanto mais barulho, quanto maior a excitação, mais se sente o medo de que a vida pudesse ser outra coisa. Quantas vezes não se usa a festa para que não se veja o deserto. Kraus di-lo de um modo fulminante: “A histeria é o........
