Os homens comparam a potência dos carros, concorrem com o número de cervejas que bebem, competem a velocidade que conseguem atingir ou a força que têm; as mulheres, comparam filhos. Os filhos são os seus troféus conquistados depois de uma longa maratona competitiva. Nem os vestidos, a quantidade de celulite, o penteado ou os maridos são tão orgulhosamente comparáveis pelas mulheres quanto os filhos. É um estimulo clássico da natureza feminina que nos acompanha desde os primórdios tal como o pavor pelas baratas.

Um pai, quando assiste a um treino de futebol do filho, grita por ele, insulta o árbitro, reclama os frangos dos filhos dos outros, mas não centra a sua análise da destreza do rapaz na comparação com os outros. Não quer saber dos outros – para ele, não existem filhos dos outros, só o seu. Se o filho joga bem, orgulha-se do feito como se fosse seu; se o coitado joga mal, inscreve-o no judo. As mães não, as mães complicam tudo. Para uma mãe, o filho é bom aluno se for melhor que os outros independentemente das notas que tiver. Um filho nunca é só bonito, tem de ser mais bonito. Não se rala nada se o menino não foi convocado para o jogo de fim-de-semana, mas perde a cabeça se souber que os filhos das outras foram. Uma nota negativa só é negativa se a maioria da turma tiver negativa e só é uma boa nota se for uma das melhores.

O filho das mães é único em prejuízo de todos os outros que são piores do que ele. Não é único sem uma exaustiva comparação. Ele não tem qualidades especiais, singulares, tem mais ou melhores qualidades. As mães vivem em focus grupo, são verdadeiras especialistas em estudos de opinião, e não aceitam facilmente as maiorias relativas ou coligações. Só descansam quando podem usar os graus comparativo de superioridade ou o superlativo relativo de superioridade – tem de ser relativo aos filhos das outras.

Quando as mães respondem que não lhes interessa saber se os amigos do filho podem sair até às 4 madrugada, e argumentam orgulhosamente “eu não sou mãe deles”, estão a mentir. Interessa-lhes imenso. Aliás, esse é o argumento mais eficaz usado pelos miúdos para conseguirem aquilo que querem. Eles bem sabem. Se o filho do lado tem telemóvel, o seu também deve ter; os ténis têm de ser no mínimo iguais aos dos outros; ficam de rastos quando descobrem que a filha da vizinha conseguiu entrar na melhor universidade e a sua ficou a décimas – se nenhuma tivesse entrado estaria tudo bem. O maior e mais bem guardado desejo das mães é que existisse um ranking de filhos, assim como existem os rankings dos países da OCDE sobre dívida pública ou natalidade, onde pudessem incluir o seu. As mães precisam de rankings para aferirem se estão educar bem, se o seu filho tem o devido sucesso, se é suficientemente feliz ou se é mesmo tão bonito quanto parece.

Os pais, no campeonato das comparações, são uma nulidade. Os filhos são ilhas isoladas e não países que se esgatanham na assembleia geral das Nações Unidas. Para eles é tudo muito simples, basta-lhes os graus superlativo absoluto sintético ou analítico: o filho é lindíssimo ou é muito bonito. Não tem comparação possível.

Deve ser por isso, por as mulheres educarem os filhos como os homens escolhem os carros, que há cada vez mais filhos que são filhos das mães. E carros mais rápidos – apesar de os clássicos e únicos continuarem a ser os mais caros.

QOSHE - Os filhos das mães - Inês Teotónio Pereira
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Os filhos das mães

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13.10.2023

Os homens comparam a potência dos carros, concorrem com o número de cervejas que bebem, competem a velocidade que conseguem atingir ou a força que têm; as mulheres, comparam filhos. Os filhos são os seus troféus conquistados depois de uma longa maratona competitiva. Nem os vestidos, a quantidade de celulite, o penteado ou os maridos são tão orgulhosamente comparáveis pelas mulheres quanto os filhos. É um estimulo clássico da natureza feminina que nos acompanha desde os primórdios tal como o pavor pelas baratas.

Um pai, quando assiste a um treino de futebol do filho, grita por ele, insulta o árbitro, reclama os frangos dos filhos dos outros, mas não centra a sua análise da destreza do rapaz na comparação com os outros. Não quer saber dos outros – para ele, não existem filhos dos outros, só o seu. Se o filho joga bem, orgulha-se do feito........

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