Guerra e futebol, é só o que se vê na televisão”, diz um dos meus filhos enquanto eventualmente resolve levantar a cabeça do telemóvel. “Alertamos para a violência das imagens que se seguem”, avisam os pivôs das televisões despertando todos os sentidos que nos impedem de desviar o olhar. Ao princípio, há duas semanas, ainda tentava tapar os olhos ao mais novo, mas a banalidade da tragédia foi conseguindo, paulatinamente, entrar em minha casa e fui deixando de o fazer. Tornou-se quase uma rotina, o zapping entre futebol e mortos ou feridos. Cadáveres de crianças a sair dos escombros, bebés ventilados entre a vida e morte, sangue, gritos, carrinhas frigoríficas cheias de cadáveres. Uma série de episódios de terror repetidos à exaustão.

E, assim, nesta guerra entre um Estado soberano, uma democracia como a nossa, e um grupo terrorista, não é difícil que se escolha estar do lado dos mortos e feridos, das vítimas civis do conflito que nos acompanha os serões familiares e que nos deixa, no mínimo, desconfortáveis pela nossa paz, o nosso bem-estar e até segurança.

Este é um dos dramas de Israel: os meios de que dispõe para serem utilizados numa informação que se pretende equilibrada. E é este o trunfo dos terroristas: conseguirem que se exiba exaustivamente e sem pudor imagens do sangue de inocentes, servindo-se deles como verdadeiras armas de Guerra. São elas, as vítimas, a mais valiosa arma de Guerra de que dispõem. E nós, os telespectadores de todas as gerações, comovemo-nos com cada uma. Ou não seríamos humanos.

Expliquei como pude a cada um dos meus filhos a diferença entre árabes e muçulmanos, judeus e israelitas, palestinianos e terroristas, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, a Autoridade da Palestina e o Hamas que aprisiona o seu povo no enclave ensanguentado. Tentei, com um mapa, contar-lhes a história do Estado de Israel, as vezes que foram ameaçados e invadidos e como, em cada investida dos países vizinhos, aumentou ou escolheu as suas fronteiras. E da necessidade de Israel defender todos os dias o direito à sua existência como país e os israelitas o direito e terem direitos. Falei-lhes de todos os grupos terroristas que têm como razão de existência a destruição do Estado de Israel e a criação de estados islâmicos, autoritários e radicais. E, finalmente, do perigo, do abismo, em que o Hamas colocou o mundo, do tão falado efeito dominó que pode chegar às nossas portas.

E os bebés, as crianças, os idosos e as mulheres que são mortos pelas armas do mundo livre? Pergunta genuinamente quem não quer saber de geoestratégia, história ou entende o ninho emaranhado que é o Médio Oriente. São os escudos humanos dos terroristas e, ao mesmo tempo, o que nos impede de adicionar a Estrela de David aos nossos perfis das redes sociais. São os danos colaterais das armas israelitas que têm como alvos terroristas escondidos debaixo dos hospitais, escolas, prédios. Como ratazanas que se deslocam nos esgotos. São eles quem os sacrificam e não os deixam fugir.

Os meus filhos não eram nascidos quando no 11 de Setembro se declarou guerra contra o terror, não sabem quem foi Arafat, Ariel Sharon, Ben Gurion ou Golda Meir. Lembram-se do Bataclan e de pouco mais. E os terroristas, todos os terroristas, sabem melhor do que nós que a ignorância mata e deixa morrer. É ela a grande fraqueza dos aliados de Israel. E, por isso, de Israel.

QOSHE - A ignorância também mata - Inês Teotónio Pereira
menu_open
Columnists Actual . Favourites . Archive
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

A ignorância também mata

5 0
22.10.2023

Guerra e futebol, é só o que se vê na televisão”, diz um dos meus filhos enquanto eventualmente resolve levantar a cabeça do telemóvel. “Alertamos para a violência das imagens que se seguem”, avisam os pivôs das televisões despertando todos os sentidos que nos impedem de desviar o olhar. Ao princípio, há duas semanas, ainda tentava tapar os olhos ao mais novo, mas a banalidade da tragédia foi conseguindo, paulatinamente, entrar em minha casa e fui deixando de o fazer. Tornou-se quase uma rotina, o zapping entre futebol e mortos ou feridos. Cadáveres de crianças a sair dos escombros, bebés ventilados entre a vida e morte, sangue, gritos, carrinhas frigoríficas cheias de cadáveres. Uma série de episódios de terror repetidos à exaustão.

E, assim, nesta guerra entre um Estado soberano, uma democracia como a nossa, e um grupo........

© Jornal SOL


Get it on Google Play