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Isso é que é preciso!

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22.10.2021

Isso é que é preciso!

É uma das mais deliciosas frases da língua portuguesa, intraduzível na medida em que o significado aparente esconde toda uma vontade de atirar à tromba do destinatário um pano encharcado. Tal qual a discussão do Orçamento do Estado.

E ao sétimo ano a discussão do orçamento do Estado tornou-se mais interessante, ao ponto de ter devolvido audiência aos telejornais. O Presidente da República, sempre pedagógico, explicou às criancinhas e lembrou ao povo que sem orçamento aprovado não haverá Governo. Alimentados diariamente durante os confinamentos com três temporadas completas de quatro séries diferentes, os portugueses desataram a imaginar a trama dos próximos capítulos da novela política.

Não são os únicos. Pelas lideranças partidárias há quem trace cenários e treine poses em frente ao espelho, antecipando anúncios de decisões graves “Portugueses! Nesta hora difícil…”. A actual liderança do PS não enjeitará o papel de vítima, na esperança de rapar ao PCP e ao Bloco os pontos percentuais necessários para ganhar umas eleições antecipadas. A jogada é arriscada, podendo traduzir-se numa vingança da história: um PS vencedor, sem maioria absoluta e sem maioria de esquerda, abriria caminho a uma geringonça “fascista”. A destra geringonça sentaria no Governo, com o PSD, os dois novos partidos de direita, Chega e Iniciativa Liberal que, ao contrário do PCP, não têm pruridos governativos e não apoiarão um Governo de que não façam parte.

A entrada do Chega no Governo forneceria aos partidos à esquerda uma agenda política comum (“Fascismo nunca mais!”), fácil e com garantia de sucesso baseada na triste história contada por Esopo, da rã – in casu o PSD – e do escorpião – o Chega, unidos por um contrato contra natura. Uma pugna contra um governo “fascista” permitiria uma renovação suave e consentida da liderança do PS, abrindo caminho para um XXIV governo constitucional, de esquerda, maioritário de um só partido ou assumindo, finalmente, uma coligação governamental à esquerda.

Esta possibilidade dependeria do funcionamento do mecanismo........

© Jornal i


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