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O hara-kiri da direita portuguesa

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26.11.2021

O hara-kiri da direita portuguesa

O centro-direita assente no PSD e no CDS e na sua capacidade conjunta de se organizarem, mostrou que podia ser uma alternativa política real, ganhou um impulso novo e fez tremer o Governo de António Costa.

Facto indesmentível é que para uma democracia ser saudável e de qualidade necessita de dispor de um governo com apoio maioritário cuja legitimidade seja evidente e resulte de uma escolha clara do eleitorado, mas também de uma oposição que cumpra duas funções: a de ser um contrapeso efectivo ao exercício do poder pela maioria e a de propor uma alternativa política clara ao eleitorado.

Infelizmente em Portugal, desde 2015, não dispusemos destas condições: por um lado, o governo que foi empossado em 2015 não resultou de qualquer escolha clara do eleitorado, resultou apenas do ódio que a esquerda no seu conjunto votou ao governo de centro-direita de Passos Coelho. O eleitorado de 2015, que nem sequer escolheu o PS como o partido mais votado, viu-se sujeito aos ditames e caprichos de dois partidos extremistas, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista; por seu turno, a suposta maioria emergente da engenharia política a que chamamos ‘‘geringonça’’, foi apenas um circo de enganos em que o PS prometia aos seus supostos parceiros o que sabia não poder cumprir e a seguir incumpria de forma encapotada o que publicamente dizia defender.

O resultado foram seis anos de bloqueio institucional e de estreitamento das perspectivas do país.

A oposição de centro-direita também não funcionou nada bem. Teve dois ciclos: até 2017 viveu politicamente da imputação de ilegitimidade ao Governo socialista, como se lhe fosse possível encontrar uma solução alternativa mais legítima. Substituído Passos Coelho por Rui Rio depois da catástrofe das autárquicas de 2017, o PSD, cabeça da oposição, assentou-a em dois postulados, ambos politicamente falhados: o primeiro consistiu em apresentar essa oposição como uma coisa ‘‘construtiva’’ e fiável, na qual os socialistas se poderiam apoiar para governar se porventura decidissem escolher uma via mais centrista; o segundo e mais pernicioso, consistiu em desistir de apresentar ao país uma alternativa politica consistente, apostando na ideia de que o poder não se conquista, cai-nos no colo quando o adversário o perde, o que acontecerá cedo ou tarde. É aliás uma via com grandes tradições no PSD, que sempre que desiste de apostar no risco das reformas, cai na tentação incumbente da mera alternância política.

Desta forma, o maior partido da oposição, o único que pode encabeçar uma alternativa política, deixou nas mãos dos partidos mais pequenos da direita o encargo de apresentar alternativas ao poder socialista, dando aos mais radicais, designadamente ao Chega, a oportunidade histórica de se apresentarem como a única verdadeira oposição ao socialismo vigente.

Só que os factos têm muita força e a realidade acaba por se impor: Portugal em 2021 é um país bloqueado, refém das absurdas exigências da esquerda radical, com perspectivas de futuro cada vez menos risonhas, e o eleitorado acabou por reparar. Terá sido a pandemia com os seus atinentes desastres de crise económica, colapso do tão gabado sistema nacional de saúde, tragédia do ensino público, alienação da máquina do estado e da função pública em relação às necessidades dos cidadãos, o que quiserem, mas no Verão de 2021 respirava-se um ambiente de enfartamento e cansaço em relação ao regime socialista.

Faltava a prova dos nove e essa veio com as autárquicas de 2021: os socialistas ainda foram os mais votados, mas a perda de eleitorado foi evidente e a perda da Câmara de Lisboa o símbolo acabado de um fim de ciclo prenunciado.

O centro-direita assente no PSD e no CDS e na sua capacidade conjunta de se organizarem, mostrou que podia ser uma alternativa política real, ganhou um impulso novo e fez tremer o Governo de António Costa.

Não houve, salvo os comentadores e os comendadores de esquerda, quem não tenha feito notar que o ciclo político estava a virar. Não é que a hora do centro-direita tivesse chegado, mas tal como São João Batista anunciou a Cristo, também as........

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