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A comunidade muçulmana em Portugal a caminho de uma reconfiguração: o que está em causa?

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20.08.2021

A comunidade muçulmana em Portugal a caminho de uma reconfiguração: o que está em causa?

A comunidade muçulmana em Portugal a caminho de uma reconfiguração: o que está em causa?

João Henriques 19/08/2021 23:55

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Por João Henriques, Investigador Integrado do Observatório de Relações Exteriores (OBSERVARE)/Universidade Autónoma de Lisboa, Vice-Presidente do Observatório do Mundo Islâmico, Auditor de Defesa Nacional pelo Institut des Hautes Études de Défense Nationale (IHEDN), de Paris

Resumo

Consequência directa do fenómeno da globalização, associado aos mais recentes fluxos migratórios, provenientes, em particular, de territórios em conflito, Portugal registou ao largo dos últimos anos um aumento acentuado na entrada de cidadãos oriundos de países muçulmanos, o que, na presença de variadíssimos sinais, tem vindo a criar um ambiente de hostilização por parte de alguns sectores da sociedade, frequentemente a reboque de uma retórica de rejeição da figura do “outro”, do “intruso”, veiculada por parte de alguma Comunicação Social de matriz sensacionalista, com recurso recorrente do termo islamofobia[i].

Para o aprofundamento deste sentimento, contribui, igualmente, o discurso de líderes de grupos e sectores políticos de orientação radical. Ainda assim estudos recentes mostram que Portugal ocupa uma posição cimeira no domínio das boas práticas de acolhimento de quem procura o nosso país em busca de uma vida melhor. Isto, contudo, não põe Portugal ao abrigo dos riscos que estão associados a uma eventual infiltração de elementos ligados ao radicalismo violento. Em resultado de todas estas movimentações populacionais, sobretudo para o ocidente europeu, começa a desenhar-se um cenário, ainda que, de momento, ténue, de uma reconfiguração das sociedades ocidentais. Também Portugal, como uma comunidade muçulmana tradicionalmente integrada, passou a ser mais um exemplo deste novo figurino.

Análise

Ao longo das duas últimas décadas, devido a múltiplos factores, o número de migrantes e de refugiados com destino à Europa ocidental tem vindo a aumentar exponencialmente. No caso específico da população muçulmana, os números mais recentes revelam que a imigração com destino a Portugal tem registado algumas significativas variações. Os primeiros muçulmanos a chegar ao nosso país eram estudantes universitários vindos de Moçambique, da comunidade de origem indiana. Algum tempo depois, e já com o processo de descolonização em marcha, foram-se juntando outras importantes parcelas de muçulmanos oriundos, em particular, de Moçambique e da Guiné-Bissau.

Segundo o Sheikh Zabir Edriss, Presidente do Centro Cultural das Colinas do Cruzeiro, profundo conhecedor da realidade portuguesa, a partir dos anos 90 do século passado, a maioria dos imigrantes que chega a Portugal vem directamente do continente asiático – Paquistão, Bangladesh e Índia[ii].

São, sobretudo, do sexo masculino, em busca de trabalho, por conta de outrem ou investindo em pequenos negócios. Vivem agrupados em alojamentos. Aqui instalados, procuram obter a documentação que legalize a sua presença em Portugal para poderem, mais tarde, viajar dentro do espaço Schengen, já na companhia da família, para outros destinos, em particular para Inglaterra, Espanha (sobretudo, Catalunha) e França, onde podem encontrar compatriotas seus e melhores condições de vida. Outro grupo de cidadãos, estes do Bangladesh, beneficiando de mais apoio comunitário, dedicam-se à restauração.

Ainda assim, não deixam de procurar, também eles, melhores condições de vida noutras paragens, nomeadamente em Inglaterra. Os paquistaneses têm, por seu turno, trabalhado sobretudo na agricultura, no operariado e na área dos telemóveis. Os sikhs (comunidade não muçulmana), por seu turno, surgem, agora, dedicando, também, à restauração e ao comércio de mercearias.

Com uma localização geográfica próxima dos países do Norte de África, a par das suas tradições de tolerância, tornaram Portugal um dos destinos mais escolhidos por estes imigrantes, seja como ponto de chegada ou servindo como plataforma para outros países europeus. De acordo com a mais recente estimativa da World Population Review[iii], do passado mês de Julho, o número de cidadãos muçulmanos a residir em Portugal é de 65 mil.

Nos números divulgados no relatório do Migrant Integration Policy Index 2020[iv], relativos a 2019, Portugal figurava nos dez primeiros lugares com a taxa de integração de imigrantes mais favorável num total de 52 países analisados, sendo ultrapassado somente pela Finlândia e Suécia.

Devido a múltiplas campanhas de oposição à chegada de novos imigrantes é levantada, por determinados grupos, a questão relacionada com a sua integração numa “sociedade com culturas e modelos de vida bem diversos”, o que frequentemente dá lugar a reacções de rejeição que resultam em manifestações xenófobas ou racistas, motivadas pelo sentimento de insegurança que lhe está associado.

A este propósito, refira-se um curto texto inserido no MIDDLE EAST FORUM, do passado dia 30 de Julho, com base no livro Jihadist Infiltration of........

© Jornal i


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