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Às urnas e em força

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27.10.2021

Às urnas e em força

A convocação de eleições tem de ser vista como uma solução natural, apesar de ter inconvenientes.

1. Na hora de enviar esta crónica, o Governo preparava-se para ver rejeitado o seu Orçamento pela dupla Catarina-Jerónimo, apesar das cedências de António Costa. A votação está prevista para hoje, sendo improvável qualquer evolução viabilizadora de última hora. Em consequência, o presidente Marcelo fez saber que dissolverá o parlamento e chamará o povo às urnas, coisa que ele e todos queriam evitar, mas não conseguiram. Dar a cada um dos eleitores a chave da decisão, sem dramas nem choradeiras, é coisa natural em democracia, ainda que nem sempre seja desejável. Este desiderato era, apesar de tudo, uma hipótese, desde as últimas legislativas que destruíram o equilíbrio a três partidos a que chamámos ‘‘geringonça’’. Esse desenho desengonçado durou uma legislatura e foi feito contra a PAF de Passos Coelho que, escusadamente, tinha ido para além da troica, vendendo ativos que hoje bem falta nos fazem. Nesta legislatura, já não fazia sentido e também não havia mais espaço para gritar que a culpa de todos os males era do tal Passos, da troika ou mesmo da pandemia. Mudaram as circunstâncias e, apesar das cedências suicidárias do PS, nada chegava para saciar o Bloco de Esquerda. O PCP ainda poderia ceder porque objetivamente alguns dos seus eleitores ganhariam no imediato com o leilão em curso. Mas aí o Bloco ficaria sozinho na oposição. Teria o novamente o melhor de dois mundos. Ficaria na posição confortável de quem vive em zonas finas, adora Sushi, encomenda Uber Eats, tem casa própria, frequenta espetáculos de vanguarda, conhece mundo e proclama ser de esquerda, exigindo tudo para todos, sabendo de antemão que não há dinheiro. Estes discípulos da vedeta Varoufakis são tão dissimulados como ele. A palavra, pois, ao sensato povo português. A pior coisa que aconteceria era, precisamente, não irmos às urnas e continuarmos a definhar lentamente. O que é pena é voltarmos a ir sem ter mudado as leis eleitorais, mantendo um sistema anacrónico, uma distribuição eleitoral de deputados desequilibrada e convidativo à abstenção. E se os resultados não ditarem um vencedor óbvio, pois que se façam coligações patrióticas à direita, ao centro ou à esquerda, em função do quadro decidido pelos portugueses.

2. A campanha interna para a liderança do PSD já está a ser dura. Começou logo com o tom de Rio na confirmação da sua candidatura, efetuada no seu reduto do Porto em jeito comicieiro. Ficou fundamentalmente o registo de duas farpas: a acusação de que Rangel teve o pior resultado de sempre do partido e a referência à forma veemente como o próprio Rio diz que reage quando está picado. A ameaça pode ser válida no boxe, mas não na política democrática. Sobretudo quando se trata de uma disputa que pode determinar o nome do primeiro-ministro. Imagine-se o que seriam as reações de um Rio picado e chefe de Governo contra um sindicato, contra uma manifestação discordante, contra uma empresa que contestasse um ato governativo, contra um técnico do Estado que decidisse em desfavor do poder? Ser combativo é virtude, ser vingativo é defeito. Rio acaba, entretanto, o mandato. Há que chamar os militantes a pronunciar-se. Não é a melhor altura? Paciência! Quem passou pelo Tribunal Constitucional, como Mota Pinto que preside à mesa do Congresso do PSD, deveria saber isso melhor do que ninguém. Compete-lhe mais agilizar o processo do que criar entraves não democráticos. Se houver problemas a resolver há o conselho de jurisdição interna e o próprio Tribunal Constitucional, que regula os partidos. Curiosamente muitos dos que acharam a formação da ‘‘geringonça’’ uma perversão democrática, consideram agora que Rio pode permanecer no poder sem ir a votos. Já nem em África se usam esses esquemas.

3. Como aqui se alertou ainda na semana passada, a pandemia está a recrudescer em vários países. O nosso não é exceção. Os jornalistas e comentadores voltaram a estar preocupados e a repor o tema na ordem do dia, o que é correto. É, no entanto, essencial recordar que, este outono/inverno, apesar da alta taxa de vacinação nacional, é a primeira época fria que vamos passar com a variante Delta, muito mais perigosa e mortal, podendo surgir outras. As coisas podem agravar-se subitamente e o descalabro do SNS está mais à vista do que nunca. Mesmo em gestão, o Governo tem de assumir o controlo da situação, preparando os diversos poderes públicos para cenários mais graves do que os esperados.

4. É impressionante a falta de eficácia........

© Jornal i


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