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Um congresso como a governação, de turno

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30.08.2021

Um congresso como a governação, de turno

O temor da divergência assombrou o Congresso de Portimão. É o habilidoso parte e reparte, de uma forma de fazer política datada, plena de manigâncias e sem qualquer sentido no tempo atual, mas o partido e o país gostam.

Um congresso deveria ser a expressão maior da vivência das dinâmicas internas de uma instituição partidária, num cruzamento entre passado, presente e futuro, mas num partido fundador da democracia portuguesa os sinais não são definitivamente os melhores.

Não tenho e não conto ter nenhuma intervenção política ativa, por manifesta divergência com o exercício presente depois de muitos anos de ação permanente, intensa e consequente, apesar da persistência do compromisso individual com os valores. Descansem os tribalistas, caçadores de divergências, que se o quisesse, provavelmente seria hoje presidente de Câmara, na sequência de um convite em 2016 para ser o segundo da lista de alguém que termina agora o terceiro mandato, que não aceitei, por opção estrutural pela atividade privada. Não esqueço a golpada inicial, não estou para validar um exercício que em demasiados pontos divergentes no conteúdo e na forma do ideário do PS. Se na pandemia a ação, no essencial, correspondeu ao que o país precisava, persiste uma falta de visão estratégica para o país, uma preocupante imediatismo e demasiados riscos de compromissos com partidos apenas preocupados em salvaguardar interesses parcelares, a par de uma evidente falta de transparência de algumas das opções políticas e da perene confusão entre os negócios e a política.

Democracia é liberdade, divergência e convergência, mas continua a temer-se a diversidade, a embarcar em formas pífias de inclusão de quem pensa diferente, através do mecanismo pantanoso das listas únicas. A história habituou-nos a que esse marasmo da diversidade não signifique nada, porque as convicções de quem, divergindo, o concretiza têm a solidez de uma gelatina ou a verticalidade de um polvo. O partido da liberdade não pode persistir em obstaculizar a diversidade, seja na imposição de regras burocráticas que a dificultam, no expediente das listas únicas ou na tentação tribal de perseguir quem pense de forma diferente e não é útil à construção da imagem externa de unidade e pluralismo. As listas únicas são uma espécie de união nacional das diversidades, de democracia consentida, mas não sentida.

É esse temor da divergência que assombrou o Congresso de Portimão. Divergência em relação ao presente, residual, eventual divergência em relação ao futuro. Aliás, num exercício de temor ridículo de quem depois de alimentar a existência real ou virtual de várias possibilidades de sucessão, procura emergir como garante de estabilidade e confiança. É o habilidoso parte e reparte, de uma forma de fazer política datada, plena de manigâncias e sem qualquer sentido no tempo atual, mas o partido e o país gostam, sendo-lhes servido o repasto cívico básico que sacia o grau de exigência vigente.

O temor não pode ser a pedra de toque do partido ou da sociedade. É certo que o temor perante o risco de contágio marcou as nossas vidas nos últimos meses, mas não existem instituições ou sociedades saudáveis construídas na base do receio por expressões de compromisso com a liberdade e a democracia.

Se tiver de haver divergência no presente, que exista.

Se tiver de haver divergência no futuro, que exista, sem a marcação de cartas que a atual liderança pretende, com o objetivo de sempre. Que quem sucede não conteste o sucedido ou questione as opções políticas tomadas. Aliás, o atual quadro e expectativas é garante q.b. dessa premissa dado que todos fazem parte do turno.

O conforto político construído, com interlocutores à esquerda amarrados ao exercício e a direita fragilizada entre a radicalização e a implosão são geradores de um registo de turno validado pela Presidência da República. Não fora a excecionalidade do contexto pandémico e a capacidade de resposta registada, que consagra o Serviço Nacional de........

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