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O pós-pandemia de cá

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27.09.2021

O pós-pandemia de cá

Diziam que era o regresso ao novo normal, mas o normal deixou de existir e temos de alterar os nossos ritmos, os padrões de consumo e os hábitos, com maior imprevisibilidade.

Depois do tempo em suspenso da pandemia, o gradual regresso às rotinas que estamos a viver decorre numa espécie de tempo diferido, em que alguns dos padrões anteriores de consumo estão completamente alterados, restando saber se a alteração é estrutural ou um resquício do condicionamento das atividades humanas e das suas consequências nas cadeias de distribuição.

A pandemia sublinhou a importância de as cadeias de fornecimento de matérias primas importantes, de bens e serviços não estarem longe da vista e do coração dos europeus, mas aliviada a pressão dos surtos do território europeu, parece que a preocupação deixou de ser prioridade, não sendo os PRR de cada Estado Membro que vão assegurar essa visão global, alguns nem sustentam essa preocupação no país.

Com a emergência de saúde pública mitigada em Portugal e na Europa, mas pujante noutros pontos do mundo onde a vacina ainda não chegou a boa parte da população, não é só o risco de surgimento de novas variantes que existe, o que já é muito grave e desigual, é a manifesta impossibilidade de retomar dinâmicas por ausência de resposta dos fornecedores dos pressupostos das vivências individuais e comunitárias.

Antes da pandemia, havia um padrão de consumo em que, com dinheiro, se podia aceder a todos os bens e serviços, ter um cardápio de oferta quase infindável para as intenções em diversas áreas, do quotidiano às viagens. Agora, há um retrocesso em que temos de configurar as nossas intenções ao dinheiro disponível e às disponibilidades da oferta recondicionada.

O setor automóvel é hoje um expoente máximo deste recondicionamento, que acrescenta a outros que já tinha ocorrido antes da pandemia, por exemplo em matéria de stocks de peças. Já antes da pandemia, quando se tinha um problema, a probabilidade era ter de se esperar por uma peça para a reparação que teria de vir do exterior, pois os stocks na marca ou em Portugal eram inexistentes. Agora pode demorar meses e ninguém tem alternativa além do encostar do veículo com problemas. Qualquer intenção ou problema tem a resposta ou a solução diferida para semanas ou meses, havendo mesmo marcas que não disponibilizam serviços de emergência para o diagnóstico dos problemas mecânicos ou veículos de substituição perante as falhas do sistema.

O exemplo pode não parecer pujante das alterações em curso, conjunturais ou não, mas se alguém que precisa de grande mobilidade para locais dispersos no território nacional ficar apeado para o desenvolvimento das suas obrigações familiares, escolares ou profissionais, sem resposta nos transportes públicos existentes, a situação ganha outra relevância.

E tudo isto acontece num momento em que somos enxameados com a ideia de que há dinheiro para tudo na bazuca. O problema é que, como em todas estas questões do nosso tempo e das circunstâncias que estamos a viver, o dinheiro não consegue comprar tudo e continuará a ser assim quando estamos dependentes de cadeias de fornecimento longínquas, com demasiadas variantes, além das questões de divergência com os valores e os princípios europeus.

O problema é que, na ânsia de gastar o que nos foi disponibilizado na bazuca, provavelmente não vamos assegurar sustentabilidade no reforço da nossa autonomia, resiliência e sentido de salvaguarda dos interesses nacionais no acesso a bens e serviços essenciais. Uma vez mais, não faremos o essencial, mas mostraremos à Europa e ao Mundo que somos bons a passar do 8 para o 80 em questões como a transição digital ou energética, por vezes, com atropelo de marcas da nossa identidade, dinâmicas comunitárias e especificidades nacionais que outros, noutras latitudes, preservam ou concretizam com outro ritmo.

É preciso bom senso, rigor e sobretudo sintonia com as pessoas e os territórios. O tempo é de procurar novos equilíbrios, que permitam a retoma das dinâmicas que são importantes para as pessoas, as comunidades e o país. Não está fácil, porque........

© Jornal i


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