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Houston, we have a lot of problems!

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08.11.2021

Houston, we have a lot of problems!

O assassinato a sangue frio da solução governativa dos últimos anos, pelos seus participantes, e a convocação de novas eleições, vão voltar a evidenciar o desfasamento de tempo entre a escolha dos portugueses e o pleno funcionamento de um novo Governo.

A aceleração dos ritmos das sociedades atuais coloca um problema relevante à organização dos Estados, das comunidades e dos indivíduos, que importa ter presente quando estamos a tratar de fazer escolhas sobre o que queremos para o futuro. Apesar da burocracia e dos obstáculos existentes, as dinâmicas das comunidades são superiores aos ritmos das instituições, no tempo e no espaço. Este desfasamento aliado à segmentação crescente das realidades, individuais e comunitárias, é geradora de problemas estruturais, de sentimentos de injustiça e de espaço para medrarem movimentos e soluções políticas divergentes da afirmação democrática, onde devem coexistir divergência, tolerância, participação e compromisso. Todos somos parte de uma comunidade de destinos, com direitos e deveres, com diferença e compromisso, mas por mais evidente que seja o desfasamento entre as dinâmicas e os tempos das instituições e os quotidianos, tardam em existirem alterações que ajustem às realidades.

O assassinato a sangue frio da solução governativa dos últimos anos, pelos seus participantes, e a convocação de novas eleições legislativas, vão voltar a evidenciar o desfasamento de tempo entre a escolha dos portugueses e o pleno funcionamento de um novo Governo. Não há problema maior quando o Estado e as instituições estão preparadas para funcionar com um sentido de interesse comum e um ritmo suficiente para assegurar as dinâmicas da sociedade, como acontece na Alemanha, mas em Portugal é uma tragédia. Tudo estagna ou finge que está a andar, mas há uma suspensão mental e física difusa à espera de quem vem a seguir, porque, manda a má tradição, tudo pode mudar, em função dos novos humores políticos, sem cuidar de mínimos de previsibilidade.

Este é um problema estrutural evidenciado pelas soluções esporádicas que os Governos arranjam para responder ao problema. Não resolvem o problema geral, respondem de forma parcial. As Lojas do Cidadãos, tal como os Espaços do Cidadãos, ou os programas SIMPLEX são respostas dedicadas destinadas a responder à sintonia de ritmos que se impõe, num Estado que tem de ser eficaz a corrigir as distorções, as injustiças e as necessidades, até a ditar as regras da salvaguarda dos mínimos, mas não tem de estar em tudo e em todo o lado. Tem de fazer bem as funções de soberania, do Estado Social e ser ágil para responder às necessidades gerais, do bem comum, que se imponham pelas dinâmicas da sociedade e da nossa integração nos contextos internacionais. Não tem de ser árbitro e jogador em simultâneo nem pactuar perigosas nebulosas entre política e negócio, que estão presentes em todas as áreas político-partidárias.

O problema do desfasamento dos ritmos é que só pode ser resolvido com vontade reformista de colocar o cidadão no centro das opções, não uns em particular, mas numa visão integrada. O que aconteceu nos últimos anos, da estocada geringonça, é que por via das necessidades de sobrevivência política agrilhetada aos parceiros BE, PCP, PAN e afins, o foco real esteve nos nichos eleitoral e não no geral, embora a ilusão da narrativa fosse de que era para todos e com tudo. Mesmo as narrativas são limitadas e os recursos são finitos, o que torna, ou deveria tornar, mais exigente o exercício de decidir em função do bem comum.

Não é de esperar que a carpideira acusatória à esquerda em torno do fim da geringonça e a desordem democrática à direita pelo vislumbre de poder resultem em soluções de superação dos desfasamentos de ritmos que penalizam os cidadãos e sustentam o nosso atraso em relação a outros, mas a voz e o voto do Povo podem indicar caminhos. Senão, haverá sempre a realidade. Aquela que faz com que os amorfos e os fervorosos adeptos da defunta solução governativa procurem agora demarcar-se dela, enquanto verbalizam divergências na praça pública, com papões de antigamente: a........

© Jornal i


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