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De regresso a Almograve, após o tribalismo mediático

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09.08.2021

De regresso a Almograve, após o tribalismo mediático

Em Almograve como em tantos outros pontos do território, veja-se o Pinhal Interior dos incêndios de 2017, o tribalismo mediático foi incapaz de gerar respostas imediatas para a realidade das dinâmicas comunitárias mínimas e para os desafios estruturais.

A realidade é uma coisa tramada. Tem a capacidade de se sobrepor aos impulsos e aos vómitos das narrativas que cavalgam a espuma das ondas mediáticas, sem qualquer preocupação realistas com a realidade do quotidiano das pessoas e dos territórios.

É claro que após o furacão mediático em torno do território de Odemira, há respostas que por serem estruturais demoram tempo a concretizar, mas a relevância dos impactos negativos imediatos está bem presente e nenhum dos surfistas de ocasião está preocupado com eles. É o costume. Em todas as ocasiões mediáticas, há sempre quem fale, quem cavalgue a onda, sem estar preocupado com o que permanece após o desligar dos holofotes, na expressão de um quotidiano sempre demasiado afastado das preocupações e das decisões cruciais do poder em Lisboa.

O drama é o de sempre quando estão em causa populações integradas em contexto rural, fora dos grandes centros urbanos e em territórios de baixa densidade, não há nenhuma concretização palpável de alternativa para a vida das pessoas que cá vivem, apenas o fustigar de que não devem prosseguir o caminho que seguiram enquanto em Lisboa se discutiam as reivindicações dos pequenos interesses para viabilizarem Orçamentos de Estado.

E os resultados do mediatismo inconsequente estão à vista na vida concreta de quem dá alento aos 365 dias do ano destes territórios: menos gente e menos atividade económica, logo, menos capacidade de gerar encaixe nestes meses de verão que tornassem a insipiência do resto do ano sofrível.

Uma vez mais sem o Meo Sudoeste, agora sem o diabolizado ZMAR e com o panorama da habitação disponível e dos estabelecimentos comerciais estagnados, as vendas voltaram a tombar, o ânimo resume-se à máxima “ao menos que haja saúde” e a comunidade entra na espiral depressiva que nenhuma beleza do território por si só compense.

Se o país quer ser um pouco mais que Lisboa, o Litoral e os recantos dos interesses parciais que os partidos colocam em cima da mesa aquando de cada negociação do Orçamento de Estado ou de qualquer outro instrumento financeiro de modulação da realidade, tem de encontrar forma de assegurar sustentabilidade aos 365 dias destas comunidades e dos seus territórios.

Não se pode limitar a proibir, a condicionar ou a ignorar como faz há demasiado e não hesita quando tem uma oportunidade de conquistar um tempinho mediático por conta de qualquer situação concreta que, por ação ou por omissão, ajudou a construir.

Não pode acordar estremunhado para as violações de direitos, liberdades e garantias, porque o exercício político tem de ser informado e consciente da realidade a que se destina, além das clientelas partidárias e eleitorais, dos nichos temáticos e de outras extravagâncias alheias ao interesse geral e aos equilíbrios de bom senso, tolerância e sentido de coesão nacional.

Em Almograve como em tantos outros pontos do território, veja-se o Pinhal Interior dos incêndios de 2017, o tribalismo mediático foi incapaz de gerar respostas imediatas para a realidade das dinâmicas comunitárias mínimas e para os desafios estruturais. Ultrapassada a fase dos holofotes e da comoção política com uma realidade e de uma tensão que estava aos olhos de todos, perduram os de sempre, os que garantem os mínimos para que determinadas partes do território nacional sejam uma espécie de pátio do recreio da escola da vida urbana e do centralismo. Tem sido assim, mas não pode persistir, contando apenas com o esforço dos autarcas para contrariar uma dinâmica avassaladora negativa. Boa parte da sementeira da extrema-direita no território nacional radica na perceção de abandono da população em relação ao poder central e da incapacidade de o Estado assumir uma ação consequente perante as realidades concretas, na prevenção, na coesão e na fiscalização.

O problema é que mesmo os resilientes nestes territórios começam a........

© Jornal i


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