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A transumância política em curso

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15.11.2021

A transumância política em curso

Transumância-passagem periódica de rebanhos, geralmente de carneiros, da planície para as montanhas e vice-versa.

Numa sociedade sem escrutínio, tudo é relativo e tudo é ajustado às realidades e às pretensões. É assim que dos assuntos de Estado à aplicação da justiça tudo parece ter uma geometria variável em função de variantes que não estão previstas na lei, mas são permitidas pela anuência geral da comunidade.

Temos o Portugal que queremos e que merecemos, porque não fazemos mais para ter diferente. Houve quem tentasse, mas foi demovido e a alegria do conformismo instalou-se em direção a um país com muito de inviável por conveniência dos protagonistas políticos e conformismo dos cidadãos.

A irresponsabilidade política de transformar o Orçamento de Estado para 2022 numa espécie de moção de censura ao Governo é similar à construção de um muro de diálogo com o PSD ou com extemporânea afirmação de que este poderia ter-se disponibilizado para o interesse nacional da viabilização deste instrumento de governação, na véspera da aplicação da Bazuca em contexto de pandemia, por agora sem confinamento.

Não houve vontade política, houve habilidade de quem domina as peças do xadrez, ora com visibilidade, ora na sombra qual big brother do status quo político e dos interesses, sempre sem o nível de escrutínio cívico, político e mediático que se impunham por subserviência, compromisso ou expectativa de benesses futuras.

Chegados aqui, em que tudo é suscetível de soar ou de ser orquestração, muito afastada da salvaguarda dos interesses gerais e do superior interesse nacional, com a esquerda à procura do tom da demarcação do tempo ido e a direita desesperada em ajustes para o tempo a vir, ensaia-se um transformismo das opções políticas dos últimos anos e a transumância dos azimutes da prole, colocando-a no ponto de anuência com o que for preciso para manter o poder.
A transumância política da colagem à esquerda, como a mãe de todas as virtudes, para a posição habilidosa e contraditória com o passado recente de habilitação ao diálogo com todos, num bailado poliamoroso de manutenção de todas as possibilidades de governação em aberto, apesar das circunstâncias.

As regras do tribalismo partidário, quando alheado dos valores e comprometida com a ânsia do exercício do poder, custe o que custar, ditam a predisposição para aderir a qualquer cenário, mas as circunstâncias podem ditar outros caminhos.

Não é certo que a dissolução da Assembleia da República proporcione ao Presidente da República um quadro político-parlamentar mais estável, logo, poderá ficar mais fragilizado.

Não é certo que a morte da geringonça, às mãos dos próprios participantes, não possa gerar uma situação em que os parceiros à esquerda, na vertigem de uma maioria parlamentar de governo, ditem a sua disponibilidade só com um interlocutor que não o protagonista atual do PS.

Com esta gente, muito pouco é certo e previsível, porque quase tudo é tática, habilidade e interesse particular, mas há certezas.

É certo que um cenário de maioria absoluta, plantado e alimentado nos media para interiorização da gleba, tornará a influência presidencial mais difusa, a caminho da irrelevância utilitária.

É certo que até 30 de janeiro, são muitas as variantes que podem influir no desgaste, nas alternativas e nos resultados, sendo possível que a maior delas seja, ainda e de novo, a pandemia. As medidas que deviam ser tomadas já face aos contágios e as que terão de ser tomadas em recurso, em estado de necessidade. Basta olhar para o que se está a passar na Europa, por agora, mais a leste.

Por falta de cultura democrática e de tolerância com quem pensa diferente, não é nada líquido que as derivas à esquerda ou à direita para fins governativos sejam aceites pelo acervo de militância do PS, de um partido que sempre acolheu essa diversidade de pensamento, mas mudou o seu perfil de militância nas últimas décadas para um maior pragmatismo em detrimento da ideologia. Os últimos anos, por ação e por opção, acentuaram o perfil tribalista, esquerdista e........

© Jornal i


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