Os limites do controlo entre o estádio e o estreito

Imagine esta cena no SoFi Stadium em Los Angeles — uma paisagem agora carinhosa e ironicamente apelidada de “Teherangeles” — onde setenta mil vozes se erguem numa única parede rítmica e ensurdecedora de som. “IRÃO, IRÃO, IRÃO, IRÃO”. No campo, a Team Melli segura um empate sem golos frente à Bélgica, perante um mar de verde, branco e vermelho que parece pertencer a outros tempos e lugares. Por um momento, o peso geopolítico do mundo parece ficar em segundo plano, substituído pela pura alegria do Mundial.

No entanto, este espetáculo está impregnado de uma forte ironia: o seu poder reside precisamente no que deixa de fora.

Para os jogadores iranianos, este Mundial não é simplesmente um grande torneio de futebol, mas uma forma de trânsito, uma passagem por um mundo que lhes é, ao mesmo tempo, aberto e fechado. A sua presença nos Estados Unidos é marcada por restrições e negociações, por rotas autorizadas e negadas, pela discreta burocracia da permissão que se esconde sob a capa de um desporto global que se apresenta como um bastião de liberdade.

Depois, findo o jogo, num balneário silencioso, fica o rasto de uma nota manuscrita num quadro branco, numa escrita urgente na breve janela de tempo que antecedeu a partida, pois a equipa iraniana é obrigada a sair dos Estados Unidos imediatamente após o jogo.

Desde a antiga Pérsia, há milhares de anos, até ao Irão de hoje, que se diz que o espírito de um povo permanece vivo e firme. Uma mensagem simples, quase frágil na sua forma, mas que carrega um peso que nenhum comunicado diplomático consegue replicar. Não é uma afirmação sobre poder, nem sobre estratégia, nem sobre vitória. É algo mais elementar: continuidade, resistência, reconhecimento.

Nos dias anteriores, surgiu outro documento de um contexto muito diferente. Em Versalhes, o Presidente dos EUA assinou um Memorando de Entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, redigido na linguagem de estabilidade, desescalada e garantia económica. É apresentado como um passo para pôr fim a um ciclo de escalada que, apenas meses antes, tinha sido enquadrado em termos muito mais ambiciosos, incluindo a possibilidade de reformular o equilíbrio de poder na região através de uma pressão militar e económica sustentada.

Entre os dois documentos encontra-se um estreito troço de água que moldou o futuro dos impérios durante séculos: o estreito de Ormuz.

Para a maior parte da Europa, Ormuz emerge de forma intermitente, regra........

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