“A verdade acabou” |
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam (…)
“Verdade”, Carlos Drummond de Andrade
Na peça “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”, recentemente em cena no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a personagem principal, interpretada por Wagner Moura, proclamou alto e bom som: “A verdade acabou”. Tudo é subjetivo e pode ser relativizado. Tudo é passível de várias versões e interpretações. Tudo é opinião sem o necessário respaldo dos factos, que perderam relevância na dinâmica social. Por isso, o protagonista Thomas Stockmann interroga-se: “Se a minha realidade é diferente da sua realidade, então a gente vive em mundos diferentes. E se a gente vive em mundos diferentes, como é que faz para se relacionar um com o outro?”
Esta é a pergunta de um milhão de dólares: como vamos viver em sociedade e assumir um destino comum se cada um tiver a sua “verdade”? Se entre nós não existir uma realidade partilhada nem pontos de contacto? Se aquilo que serve de argamassa a uma comunidade, a confiança, for erodida pela relativização dos factos e a construção de várias versões dos mesmos acontecimentos? Se, no fundo, já não houver certezas mas apenas hipóteses em função das opiniões de cada um?
Esta visão distópica está a materializar-se à medida que se consolida a era da pós-verdade, neologismo que conceptualiza a perda de influência dos factos na formação da opinião pública em favor das emoções, experiências, convicções e crenças pessoais. O conceito ganhou particular relevância em 2016, quando pós-verdade foi eleita a “Palavra do Ano” pela Oxford University Press.
Nesse mesmo ano deu-se o Brexit e também a primeira eleição de Donald Trump como presidente dos EUA. Dois acontecimentos que representam bem a capitulação da verdade perante realidades alternativas,........