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O mundo e os impostos invisíveis

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Existe uma contradição cada vez mais evidente entre a retórica política do desenvolvimento e a experiência económica concreta dos cidadãos. Repete-se, com insistência, a necessidade de “promover o empreendedorismo”, “dinamizar a economia” e “criar oportunidades para a juventude”. No entanto, por detrás deste vocabulário a realidade revela-se menos inspiradora. Guerras, taxas, multiplicação de emolumentos, juros, e tolerância ao avanço da inflação, surgem como se fossem apenas uma fatalidade externa, quando na prática, é a factura das decisões de um punhado que recaem sempre sobre os mesmos, a “classe média”.

A inflação tornou-se um verdadeiro imposto invisível que entra diariamente no orçamento das famílias, reduzindo salários reais, corroendo poupanças e adiando investimento, como consequência, de posicionamentos e escolhas políticas e económicas, mas raramente assumidas.

Num contexto internacional marcado por guerras, fragmentação geopolítica e reconfiguração da ordem mundial, os seus efeitos tendem a agravar-se, com impactos ainda imprevisíveis aqui para as Áfricas mais vulneráveis à volatilidade externa. O norte global sente hoje os abalos; as Áfricas poderão suportar amanhã custos ainda mais severos. E, quando isso acontece, os discursos oficiais continuam a pedir paciência à sociedade, como se a sobrevivência pudesse esperar.

A promessa de prosperidade convive hoje com uma arquitectura fiscal e económica que desincentiva a iniciativa, fragiliza a confiança e agrava a sensação de impotência social. É neste contexto que os BRICS continuam a aumentar a sua influência. Para as Áfricas, esta aproximação pode abrir espaço para financiamento de infraestruturas, diversificação comercial e transição energética, enquanto reduz dependências históricas em relação aos centros tradicionais de poder. Aliás, países como Angola acabam de se sentar com o Novo Banco de Desenvolvimento e piscam o olho aos BRICS, pois podem representar uma alternativa relevante não apenas para novas fontes de crédito, mas também margem de manobra geoeconómica.

Contudo, olhar para os BRICS não deve significar uma solução mágica, pois o erro seria o de repetir velhos hábitos, copiar modelos fiscais estrangeiros sem possuir moeda forte, estabilidade cambial, previsibilidade regulatória, profundidade institucional ou maturidade de mercado. Antes de importar impostos, ou outros modismos, é preciso consolidar condições. O momento exige introspecção estratégica passando por identificar vantagens comparativas e competitivas, definir prioridades e construir uma relação mais adulta com os parceiros emergentes todos em busca de maior equilíbrio.

Aliás, sem isso, qualquer aliança externa será apenas mais uma expectativa sobre um terreno economicamente frágil.


© Jornal Económico