“Ex Africa semper aliquid novi” |
“De África vem sempre algo de novo.” A frase de Plínio, o Velho, atravessou dois milénios e continua a ser citada com um misto de fascínio e paternalismo. Na visão contemporânea, o “novo” das Áfricas é apresentado como risco e instabilidade onde as agências de rating e os relatórios de risco moldam a narrativa das Áfricas como problema estrutural, como promessa adiada. A realidade discreta, pouco televisiva e de bastidores está a reescrever o “novo.”
Enquanto os holofotes se fixam nas guerras comerciais e nas tarifas punitivas, nos bastidores das economias que precisam de matérias-primas, mercados e juventude, as Áfricas tornaram-se novamente indispensáveis. Os Estados Unidos reativaram o AGOA (African Growth and Opportunity Act), um mecanismo de acesso preferencial ao mercado norte-americano para países das Áfricas Subsaariana. A proposta foi aprovada com apoio bipartidário, com 340 votos a favor contra 54, na Câmara dos Representantes, permitindo que 1.800 produtos entrem nos EUA isentos de direitos aduaneiros. Curiosamente, uma das raras medidas em que Washington opta por isenções e não por tarifas.
Em paralelo, frutas angolanas como pitaia, mamão, banana, chegam em toneladas ao Bombarral através de parcerias empresariais. Dos planaltos do Huambo partiram os primeiros abacates rumo aos Países Baixos. Nas Áfricas do Sul, acordos com empresas alemãs procuram expandir a indústria de seafood, com o discurso habitual de international standards e acesso duty free. Da China o anúncio é pragmático e claro: “tarifas zero para exportações das Áfricas a partir do dia 1º de Março”.
Nada disto ocupa as primeiras páginas. Porque admitir que “as Áfricas são necessárias” exige rever hierarquias antigas. O que se move não é caridade comercial, mas a confirmação silenciosa da lei económica, as vantagens comparativas que continuam a estruturar a eficiência dos mercados. A transição energética precisa de minerais críticos; as cadeias de abastecimento globais exigem diversificação; os mercados envelhecidos carecem de dinamismo demográfico. A complementaridade económica não é retórica, é estratégia.
O teste decisivo permanece. Destas novas corridas às Áfricas podem-se repetir padrões assimétricos ou inaugurar parcerias mais equilibradas. Se os investimentos e acordos comerciais priorizarem criação de valor local, industrialização e integração regional, então talvez o “novo” de que falava Plínio não seja exótico nem marginal, mas sim maturidade estratégica.
A paz constrói-se com interdependência produtiva e prosperidade sustentável, e exige reciprocidade. Das Áfricas vem sempre algo de novo? Talvez! Mas, desta vez, “novo” não é exótico nem periférico, é eixo!