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Os vencedores da crise

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17.03.2026

Helmut Schmidt, que sabia muitíssimo bem distinguir uma crise séria de um momento de pânico, dizia que os políticos que têm visões deviam consultar um médico. A frase era menos um insulto do que um aviso contra a embriaguez ideológica. A Europa de hoje não sofre de falta de visões, sofre de excesso de choques. E a guerra com o Irão, ao perturbar energia, economia, comércio, confiança e expectativas, ameaça produzir precisamente o ambiente em que os extremos crescem melhor: uma mistura de medo material, fragilidade governativa e descrença no actual mundo político.

Convém dizê-lo com frieza. Toda a crise económica fabrica vencedores. Nem sempre são os mais preparados, quase nunca são os mais responsáveis, muitas vezes são apenas os mais disponíveis para transformar ansiedade em slogan. O novo choque estratégico no Médio Oriente está a criar um tipo de vencedor que deveria preocupar seriamente a Europa: os populismos de direita e de esquerda que vivem da inflação política produzida pela insegurança económica.

Quando sobe o preço da energia, quando se torna mais cara a vida quotidiana, quando regressa a sensação de perda de controlo, o eleitorado não procura apenas soluções, procura culpados. E os extremos oferecem sempre culpados antes de oferecerem soluções, verdadeiras agendas de reforma ou capacidade de superar crises.

O risco para a Europa é, por isso, duplo. O primeiro é económico. O continente continua estruturalmente mais vulnerável do que os Estados Unidos a choques energéticos externos, porque importa energia, paga mais depressa o preço geopolítico da disrupção e transporta esse custo para a indústria, para os transportes e para os consumidores. O segundo risco é político. Uma economia europeia pressionada por preços energéticos mais altos, crescimento anémico e menor margem orçamental torna-se o terreno ideal para a retórica dos partidos que prometem soberania instantânea, proteção identitária e castigo das elites. É nesse ponto que a crise deixa de ser apenas uma questão de petróleo e passa a ser uma questão de regime.

A Alemanha é talvez o primeiro laboratório dessa tensão. Friedrich Merz sofreu já um revés importante em Baden-Württemberg, onde a CDU ficou atrás dos Verdes e a AfD obteve........

© Jornal Económico