menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Israel e a culpa por associação

31 0
11.08.2026

A recente polémica em torno de um grupo de influencers portugueses que viajou até Israel, a convite e com despesas suportadas pelas autoridades israelitas, parece-me, em si mesma, profundamente irrelevante. Não porque não devamos saber quem paga uma viagem, quem organiza um programa ou que interesses estão por detrás de determinada iniciativa de comunicação.

Devemos, naturalmente. A transparência é indispensável para podermos avaliar aquilo que vemos e ouvimos. O que me parece estranho é a transformação de uma prática absolutamente comum nas relações internacionais, na diplomacia pública e até na atividade comercial numa espécie de transgressão moral apenas porque, neste caso, o país que fez o convite foi Israel.

A polémica em torno desta viagem, diz provavelmente muito mais sobre Portugal do que sobre Israel.

Estados convidam jornalistas, académicos, empresários, políticos, criadores de conteúdos e líderes de opinião há décadas. Empresas pagam a influencers para conhecerem hotéis, conduzirem automóveis, experimentarem restaurantes ou promoverem destinos turísticos.

Governos fazem exatamente o mesmo quando procuram explicar a sua posição, defender os seus interesses ou apresentar ao exterior uma determinada imagem do país. Israel levou estes portugueses aos locais que quis que eles conhecessem, mostrou-lhes aquilo que considerou importante e apresentou-lhes a sua narrativa sobre o conflito. Evidentemente. Seria extraordinário que tivesse feito o contrário. O Irão organiza iniciativas semelhantes, tal como a Ucrânia, a Rússia, os Estados Unidos e tantos outros países. A diplomacia pública não nasceu com o Instagram e muito menos em Telavive.

Por isso, o problema interessante desta polémica não está na viagem. Está na reação à viagem e na extraordinária facilidade com que uma parte do debate público português e europeu passou há já muito tempo, da crítica ao Governo de Israel para uma espécie de suspeição moral sobre tudo aquilo que seja israelita.

É uma mudança aparentemente ignorada por muitos, mas politicamente muito mais importante do que parece, porque uma democracia deve poder discutir duramente as decisões de um governo sem transformar a população governada por ele numa extensão desse governo.

Há........

© Jornal Económico