França em suspenso

Alexis de Tocqueville advertia que o maior perigo para as repúblicas não reside no excesso de adversários, mas no momento em que os cidadãos deixam de acreditar nas suas próprias instituições. A França chegou perigosamente a esse ponto. Há um momento, na vida de um regime, em que as instituições continuam de pé, mas a crença nelas começa a esfumar-se. A França está nesse momento. Não é um colapso, nem uma revolução, nem sequer um caos permanente no sentido clássico. É pior, porque é mais lento e mais subtil. É a normalização da paralisia, a rotina do bloqueio, o hábito de governar por expediente. A Quinta República, desenhada para a decisão, vive hoje de improviso. E isto tem um nome, uma estratégia e uma responsabilidade política. Emmanuel Macron.

Macron foi eleito, em 2017, como promessa de superação do velho sistema partidário. Quis ser o presidente que modernizava a França, que reformava o Estado e que resgatava a Europa do seu torpor. Na política externa, teve ambição e um sentido claro de palco. Na política interna, escolheu o método mais francês e mais arriscado de todos, o presidencialismo vertical, apoiado numa maioria disciplinada e numa cultura política que confunde autoridade com comando. Durante algum tempo, funcionou. Depois, partiu-se.

A fratura começa a tornar-se estrutural a partir do momento em que o país deixa de oferecer ao Eliseu aquilo que a Quinta República sempre exigiu para funcionar sem atrito, uma maioria clara na Assembleia Nacional. A partir daí, a presidência transforma-se numa máquina pesada que já não consegue fazer uma coisa simples, decidir. A política francesa, habituada ao chamado facto maioritário, revelou uma incapacidade quase cultural para o compromisso e para a governação por coligações, algo que os vizinhos europeus aprenderam a fazer há décadas e que Paris continua a encarar como sinal de fraqueza ou humilhação.

É neste quadro que a sucessão de primeiros-ministros deixa de ser anedótica e passa a ser diagnóstico. Desde 2017, Macron teve sete chefes de Governo. Começou com Édouard Philippe, seguiu-se Jean Castex, depois Élisabeth Borne e Gabriel Attal. Em 2024, nomeou Michel Barnier. Em dezembro do mesmo ano, foi a vez de François Bayrou. Em 2025, entrou em funções Sébastien Lecornu.

Sete primeiros-ministros em menos de uma década, num regime concebido........

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