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‘Cainismo’

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08.04.2019

A palavra cainismo é muleta habitual nas análises políticas em Espanha. Refere-se à história de Caim e Abel para identificar um atavismo que condena a sociedade a uma divisão fratricida e inexorável. Embora o conceito seja preguiçoso, porque simplifica em demasia e isenta quem o usa de uma análise cuidada, a verdade é que a Espanha contemporânea está marcada por clivagens severas, por vezes violentas.

O país não viveu, contudo, enredado numa lógica de trincheira permanente. Houve consenso em matérias essenciais e urgentes onde, sem abdicar de diferenças ou até de inimizades, os principais partidos estabeleceram pactos com claro benefício para o país. A transição democrática e o combate ao terrorismo da ETA são disso exemplo. O momento actual exige um esforço semelhante.

A Constituição de 1978 foi um dos instrumentos essenciais para refrear e diluir as pulsões cainistas, e também aí reside a sua importância. Está, porém, no centro do debate político desde as eleições legislativas de 2015, ano em que irrompeu na arena política o Podemos, situado no extremo esquerdo do espectro partidário. Este partido imputou à Lei Fundamental os efeitos negativos da crise internacional de 2008, falando de “crise de regime” e de “rechaço às elites políticas e económicas”. O resultado do escrutínio não lhe concedeu a força necessária para “o início de um regime político distinto”, mas o debate em torno à Constituição estava lançado.

A crise catalã veio aprofundar e radicalizar esse debate, um ambiente que beneficiou o crescimento eleitoral do Vox, partido da direita ultramontana. Note-se, aliás, que o Vox elegeu representantes para o parlamento andaluz em Dezembro do ano passado, a primeira vez que um partido de ultraderecha obteve mandatos na Espanha democrática.

Assim, o que está em jogo nas legislativas do próximo dia 28 de Abril é a Constituição de 1978 enquanto ponto de encontro, enquanto factor de conciliação de Espanhas........

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