O terceiro choque petrolífero?

O ano de 2026 pode vir a ficar conhecido como o ano do terceiro choque petrolífero. Ainda é cedo para saber como a atual guerra do Médio Oriente irá evoluir. Todavia, tendo em conta os acontecimentos que já se sucederam, é quase certo que o impacto na economia global será enorme.

O primeiro choque petrolífero ocorreu com a guerra do Yom Kippur entre 6 e 25 de outubro de 1973 que opôs Israel a uma coligação árabe, liderada pelo Egipto e pela Síria. O impacto económico deste conflito foi enorme. O preço do petróleo quadruplicou no curto espaço de quatro meses, fazendo detonar a primeira recessão global do pós-Segunda Guerra Mundial, acompanhada de uma aceleração da inflação, evidenciando um novo fenómeno batizado de estagflação. Curiosamente, embora não tenha participado na guerra, o Irão esteve ao lado dos Estados Unidos e continuou a fornecer petróleo a Israel.

Mas os efeitos deste choque foram assimétricos. Os Estados Unidos viram a sua posição de produtor de petróleo reforçada, o dólar, que estava em crise profunda desde a a derrocada do sistema de Bretton Woods em 1971, recuperou a hegemonia, enquanto a Europa, fortemente dependente de importação de energia, se viu confrontada com custos de produção acrescidos e perda de competitividade, de que nunca chegou verdadeiramente a recompor-se. Mas também é verdade que esta crise energética mais, propriamente, de regime económico global, impulsionou a Europa a aprofundar o seu projeto de integração, com a criação do novo Sistema Monetário Europeu, em março de 1979.

O segundo choque petrolífero deu-se na viragem dos anos 1979-80, com a revolução islâmica no Irão, em 1979, e guerra Irão – Iraque entre 1980 e 1988. O preço duplicou, a partir de níveis mais elevados, a disrupção foi mais prolongada e o mercado tornou-se estruturalmente mais instável. Para além disso, atingiu as economias mais fragilidades, desde 1973, e com elevadas inflações.

E, uma vez mais, atingiu assimetricamente a Europa e os Estados Unidos. Com estes a recuperarem a sua hegemonia, afetada desde 1973, no quadro de uma nova arquitetura global em que a China ganha uma preponderância progressiva. Apesar de tudo, a Europa deu mais um salto em frente na sua autonomia económica com a decisão de avançar para União Económica e Monetária, na sequência do Relatório Delors de 1989 e que culminaria com a criação da zona euro em 1 de janeiro de 1999.

O terceiro choque petrolífero pode estar em curso. Com os mesmos protagonistas e uma nova assimetria de impactos. A Europa, já afetada profundamente nos preços da energia pelos impactos da guerra na Ucrânia, vê-se agora confrontada com um novo choque de consequências que poderão ser dramáticas.

A grande mudança de qualidade deste terceiro choque é que ele ocorre num contexto em que a relação de forças na economia global é profundamente diferente da que existia nos dois choques anteriores, com a emergência da China e de outros atores globais a dificultarem a recuperação da hegemonia global americana, tal como se afirmava desde o fim da segunda guerra mundial.

E a questão que se coloca é simples. Estará a Europa com capacidade, neste novo contexto, de dar mais um salto na afirmação da sua autonomia económica e estratégica e afirmar-se como um ator e um polo de influência global?


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