Dois mil e vinte seis. E não é uma novela

Ainda só passaram duas semanas ao início do ano e já assistimos a uma invasão, logo ao terceiro dia, à ameaça de outras, à confirmação de que o direito internacional deixou de valer sobre quem devia valer acima de tudo, e de que as alianças deixaram de ter outra utilidade senão a verificação da obediência dos mais fracos diante dos mais fortes.

E ao sétimo dia, assistimos ao assassinato de uma cidadã norte-americana por um agente que lhe faz pontaria à cabeça e a atinge mortalmente com três tiros enquanto diz “fucking bitch”, segundos depois de ela ter dito as suas últimas palavras – “I’m not mad at you”. Depois do assassinato, a Secretária de Estado Kristi Noem reage classificando a vítima, Renée Nicole Good, mãe de três filhos, como fazendo “terrorismo doméstico”, apesar de apenas estar a participar de uma acção de protesto e que até se preparava para se afastar do lugar do protesto. Assim caucionado pela governante, o assassínio tornou-se de Estado. E contra todas as evidências, Donald Trump tuíta na rede social de que é dono que lhe custava acreditar que o agente tivesse sobrevivido – “It is hard to believe he is alive, but is now recovering in the hospital.” Tudo mentiras escabrosamente ditas no mesmo exacto instante em que são expostas e é como se nada disso importasse.

O direito a regular-nos pelas evidências, ser assim usurpado, escandalosamente desprezado, é o sinal de um regime político demencial, onde as funções do senso-comum mais elementar deixam de ser garantia para uma comunidade se entender e se fazer entender. Não se poder ver e dizer, em seguida, o que se viu com certeza é como não poder pensar, é como o pensamento e o juízo não poderem respirar, não é digno.

Mas este regime demencial que se apoderou do governo do Estados Unidos é também o regime que se arroga a........

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