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Instabilidade no Médio Oriente e o preço da incerteza

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26.03.2026

A guerra no Médio Oriente volta a recordar uma realidade que a Europa tem vindo a redescobrir: num mundo interdependente, conflitos regionais transformam-se rapidamente em problemas económicos globais.

Os mercados energéticos reagiram de imediato à escalada da tensão. O preço do petróleo atingiu máximos de um ano e o gás natural na Europa registou aumentos significativos. O Médio Oriente continua a ser uma das regiões mais estratégicas do sistema energético mundial. Cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo passa pelo Estreito de Ormuz. Qualquer instabilidade nesta zona provoca volatilidade nos mercados, reflectindo-se nos preços da energia, custos de transporte e inflação.

Para a Europa, as consequências são directas. Apesar dos progressos feitos após a invasão da Ucrânia para reduzir a dependência energética da Rússia, a economia europeia continua exposta à instabilidade dos mercados internacionais. Quando o petróleo e o gás sobem, os efeitos fazem-se sentir rapidamente nos combustíveis, electricidade, transporte de mercadorias e custos de produção.

Portugal não é excepção. Num país com forte dependência energética externa, qualquer choque nos preços internacionais chega às famílias e às empresas. O aumento do preço dos combustíveis é o primeiro sinal visível, mas os efeitos estendem-se ao conjunto da economia. Há ainda a reacção relevante dos mercados financeiros. Conflitos prolongados aumentam a aversão ao risco, gerando maior volatilidade e condições de financiamento mais exigentes para empresas e Estados.

Esta instabilidade revela também um problema estrutural europeu. Durante demasiado tempo, o modelo económico assentou em três pressupostos hoje fragilizados: segurança garantida pelos Estados Unidos, energia barata proveniente da Rússia e produção industrial deslocada para a Ásia. A guerra na Ucrânia e a crescente rivalidade geopolítica alteraram profundamente esse equilíbrio.

A situação actual reforça a necessidade de autonomia estratégica europeia, na energia, na segurança e na capacidade industrial. Nos últimos anos, a União Europeia avançou na diversificação energética, no investimento em renováveis e no reforço de cadeias de valor industriais. Mas estas transformações exigem tempo. Entretanto, a economia europeia viverá num contexto de maior instabilidade. Crises regionais terão impactos cada vez mais rápidos na vida dos cidadãos.

A principal lição é clara: a estabilidade económica depende cada vez mais da estabilidade geopolítica. Para a Europa, e para Portugal, reforçar a resiliência e reduzir dependências externas tornou-se uma prioridade económica incontornável.

O autor escreve segundo a antiga ortografia


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