Só não vê quem não quer
Quando era vereador da Câmara do Porto, um senhor, sabendo dessa minha condição, referiu num tom de insinuação a falta de seriedade: "Você, como político, deve ganhar muito dinheiro!". Quando lhe referi que os eleitos comunistas têm o princípio de não serem beneficiados ou prejudicados pelo exercício de cargos públicos, pelo que ganhava exatamente tanto como ganhava antes de ser vereador, a sua reação foi: "Você é que é burro!".
Este episódio, que recordo com um sorriso nos lábios, mostrou-me que muitos criticam os atos dos outros não por os acharem criticáveis, mas por terem inveja de não os praticarem.
O que se passa com inúmeros candidatos, eleitos e/ou dirigentes do Chega vai ao encontro desta tese. Ventura clama contra a bandalheira da insegurança, mas fez eleger deputados que roubam malas no aeroporto ou que são acusados de burlas qualificadas. Ventura defende a castração de violadores e pedófilos. Mas os dedos de uma só mão não chegam para contar os casos dos seus militantes a contas com a justiça por casos de pedofilia e abuso de menores. Ventura diz cobras e lagartos dos imigrantes, mas uma representante do Chega em cargos públicos distingue-se por explorar estes imigrantes, alugando-lhes casas (?) sem condições de habitabilidade a troco de rendas chorudas. Ventura critica a bandalheira dos tachos distribuídos pelo "sistema", mas os membros do Chega, quando eleitos, fartam-se de distribuir "tachos" por familiares e correligionários. Ventura, ele próprio um trânsfuga do PSD, vê-se, agora, a braços com a deserção de vários eleitos do Chega para outros partidos, trocando os seus ideais (?) pelo apoio a forças políticas que criticavam.
Bem pode Ventura dizer que, no Chega, quando estes casos são conhecidos, atuam com rapidez e expulsam os militantes envolvidos. Não é verdade que o tenha feito em todos estes casos, mas mal seria se não o fizesse, face aos crimes escabrosos cometidos, tendo muitos deles sido apanhados em flagrante delito. Mas a questão não é essa. A questão é entender as causas pelas quais o Chega atrai para as suas fileiras, para cargos políticos de destaque, o pior daquilo que carateriza os seres humanos e que representam a negação daquilo que diz defender. Aqueles que escondem vícios privados com pseudodemonstrações de virtudes públicas. Aqueles que, anos e anos recalcados por não terem oportunidade de aceder aos vícios do poder (contra os quais tanto praguejaram), viram no Chega a oportunidade de o fazer. Naquilo que é um fruto, podre, que emana do discurso populista e de ódio.
