Perderam a vergonha!
O discurso fascizante do Chega faz com que muita gente se sinta encorajada a assumir os seus verdadeiros pensamentos, que estavam fechados no armário desde o 25 de Abril.
Mariana Mortágua foi nomeada diretora de um Programa Doutoral em Economia do ISCTE - onde leciona há vários anos. Logo se levantaram vozes da Direita - principalmente da IL - vociferando contra esta nomeação, lamentando, em primeiro lugar, que uma mulher de Esquerda possa exercer funções de responsabilidade académica e, em última análise, que uma marxista pudesse orientar doutoramentos na área económica (que, na opinião destes cérebros, deve estar reservada a quem recite a cartilha neoliberal).
Mais recentemente, Carlos Moedas decidiu afastar a ex-deputada do PCP Rita Rato do cargo de diretora do Museu Nacional da Resistência (instalado no Aljube, utilizado pela ditadura como prisão política), para o qual tinha sido nomeada após ser selecionada num concurso público. É reconhecido que exerceu com competência o seu cargo, colocando o museu num lugar de destaque, mas Moedas não lhe perdoa o seu passado (e presente!) político e, vai daí, saneou-a, nomeando, sem ser em resultado de um concurso, outra pessoa. O mesmo aconteceu com Francisco Frazão, afastado da direção cultural do Teatro do Bairro Alto.
Seguindo esta sanha persecutória, o Governo decidiu, em matéria de negociação do pacote laboral, não convidar a CGTP, reconhecidamente a maior central sindical nacional. O argumento foi de que a CGTP não está interessada em negociar. O que todos sabemos que não é verdade: a CGTP apresenta propostas concretas sobre a legislação laboral. O Governo pode não gostar das mesmas, não pode é, num regime democrático, excluir ninguém por delito de opinião.
Perante este avolumar de situações inadmissíveis em democracia, muitos são, infelizmente, aqueles que fazem recordar a afirmação de Martin Niemöller, um pastor luterano alemão que passou muitos anos de vida preso nas prisões e campos de concentração nazis: "Primeiro eles vieram buscar os comunistas, e eu fiquei calado - porque não era comunista. Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado - porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado - porque não era judeu. Foi então que eles vieram buscar-me, e já não havia mais ninguém para me defender".
Em contraponto, e felizmente, há aqueles que se reveem nos versos de Manuel Alegre: "Mesmo na noite mais triste/em tempo de servidão/há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não".
