Esquecimentos da Esquerda em matéria de imigração

Entretido em arrumações, caiu-me nas mãos, há dias, um exemplar da vetusta "Faire", uma revista sobre socialismo e autogestão, datada de 1976, que traz uma entrevista de António Lopes Cardoso a propósito da reforma agrária. Mas o que me prendeu realmente a atenção foi um curto artigo intitulado "A quem serve a imigração?", assinado por Jean Le Garrec, que viria a ter um percurso distinto como deputado pelo PSF. Denunciam-se, nesse texto, os mecanismos de exploração da mão de obra estrangeira e as deploráveis condições habitacionais dos imigrantes, os quais, inconformados, recorriam à greve e contavam com o apoio dos demais trabalhadores e dos sindicatos.

Cinquenta anos depois, os imigrantes subsistem no nosso país em condições piores do que aquelas que o francês descrevia em 1976 ("alojamentos de 9, 6 e 4,5 m2, separados por divisórias de contraplacado"). Sucedem-se as notícias de pessoas amontoadas em caves insalubres, empilhadas em beliches, a rodarem na "cama quente" ou a viverem na rua, em Lisboa e no Porto.

Perante isto, pergunto-me onde estão hoje as manifestações e os protestos da Esquerda portuguesa que se autoproclama humanista e defensora dos imigrantes enquanto estigmatiza qualquer pessoa que ouse sugerir que possam ter entrado em Portugal imigrantes em excesso face às nossas capacidades para os acolher condignamente. Para além da justa militância antirracista e da insustentável doutrina da imigração ilimitada, o que se ouve da Esquerda é um discurso economicista, estranhamente alinhado com o discurso dos patrões. Uma vez cá dentro, eles que se desenrasquem.

Longe vão os tempos em que os sindicatos organizavam a chegada da mão de obra imigrante e governos socialistas estabeleciam quotas e limites, com a preocupação fundamental de evitarem a degradação salarial e laboral e de os integrarem na comunidade de cidadãos, em pé de igualdade com os nacionais. Em 1965, Roy Hattersley, um deputado trabalhista, dizia: "sem restrição, a integração é impossível". Há umas décadas, a Esquerda considerava a exploração da mão de obra estrangeira como uma variável de ajustamento do capitalismo. Hoje, alheia-se das condições de vida destas pessoas, refugiando-se num moralismo proclamatório que pouco aproveita aos imigrantes e afasta uma parte substancial do seu eleitorado.


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