Testemunhodependência
Quase uma dúzia de homens e mulheres em fileiras nos bancos, de ar aborrecido, meia dúzia de guardas de braços cruzados, armas e algemas à cintura como operários da ordem, aquilo era assunto de quadrilha. Tios e sobrinhas no tribunal, irmãos e primos e vizinhos de infância, há meses o bairro foi cercado pelo corpo de intervenção, peneirado dos pés à cabeça e ali estava, apanharam pacotes de droga, dinheiro, pistolas clandestinas, carros kitados e a pequena multidão de supostos implicados.
O procurador da República, senhor de pouca paciência, estava nesse momento a interrogar, por teleconferência, um cidadão reticente pendurado no outro lado do ecrã, envergonhado. Tal como os drogados são dependentes de droga - toxicodependentes - os tribunais dependem de testemunhas. Os arguidos são inocentes até prova em contrário. O testemunho é a prova rainha. O procurador perguntou-lhe o nome, profissão e disse-lhe um número de telemóvel, nove, seis, etc.
- Conhece este número?
- Há quanto tempo é que o tem?
- Há três ou quatro anos.
- O que é que fez para ser aqui testemunha?
- Fiz mal a mim mesmo. Numa altura má da minha vida, fui consumidor. Fiz mal à minha vida.
Um silêncio. O procurador tinha na cabeça uma lista de perguntas.
- Essas conversas que o senhor teve, e que foram interceptadas, o que é que o senhor fez com quem?
O interrogado pareceu dar três voltas às cuecas e voltar ao mesmo sítio, sem as despir.
- Não sei dos nomes deles porque não me interessavam.
- Ai não lhe interessavam os nomes? O que é que estava a ser tratado nos telefonemas, qual era o assunto exactamente?
- Ahhh, era exactamente para adquirir algo, disse a testemunha, obrigada a dizer a verdade sob pena de procedimento criminal (é assim que se diz).
- O que é que o senhor consumia?
- Também, especificamente, às vezes.
- E como é que as denominava?, porque outros nomes as chamava? A branca é a cocaína, a castanha é a heroína, usava este jargão para se referir aos produtos?
- Branca e castanha, sim.
O tempo passou e o nome do vendedor varreu-se como vento da memória.
- Lá está, não sei dizer o nome. Foram coisas esporádicas.
- O senhor não tem de ser amigo, nem de os convidar para sua casa!
O homem admitiu, com cara de pensador, que comprava à entrada de Espinho e sempre a mesma pessoa.
- Sempre a mesma pessoa e não sabia o nome dele?! Como é que o tratava?
- Tratava-o normalmente como uma pessoa...
A sala rebentou de riso. Dali não ia sair mais nada, o procurador ainda disse
- Era o senhor X, era?, não era o Mãozinhas, o Gilette?
Mas a testemunha só repetia que isso já não lhe interessava, tinha sido uma fase, uma fase má, uma fase que...
- Deixe lá a fase!, gritou o procurador.
E o homem apertado guinchou:
- Eu estive mal na vida, foi uma altura em que afundei-me, o que é que quer que eu diga, que é mentira?!
Aqui, interveio a juíza presidente:
- Aqui não há qualquer juízo de valor sobre a sua fase má!
O tribunal só queria que o homem no ecrã dissesse o nome de um dos que o escutavam no banco dos réus. Então, um destes homens, de grandes bigodes, esticou os braços e começou a abri-los e a fechá-los como se dobrasse sozinho uma toalha de sala, um lençol, e ao mesmo tempo ronronava.
- Está com sono, é?, gritou-lhe a juíza.
- É só preguiça, suspirou ele, ainda em modo de gato ao sol.
- Ai é preguiçoso!? Deixe-se de parvoíces, isto é um tribunal!
E era: o tribunal de São João Novo, pendurado no rio Douro, cravado no velho granito do Porto.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia
