É um Brasil profundamente dividido aquele que no próximo dia 30 terá de tomar uma decisão quanto ao rumo que pretende seguir na próxima legislatura. Um país social e economicamente degradado que se vê, de um lado, tolhido por um populismo quase primário, baseado num assistencialismo exacerbado, protagonizado por uma cúpula política cuja ascensão se deveu a métodos pouco claros e decisões censuradas pelo poder judicial brasileiro. Contrapõe-se a isto uma direita identitária e autoritária, saudosista da ditadura militar, e que se alimenta do fervor religioso promovido pelas seitas evangélicas que proliferam um pouco por todo o país.

O quadro atual é o resultado da ausência de renovação que o sistema político-partidário brasileiro evidenciou nos últimos anos, ao revelar-se incapaz de atrair novos atores com capacidade para implementar políticas de crescimento económico sustentável e bem-estar social. A consequência da não renovação está hoje bem patente na disputa entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro: dois candidatos do sistema, com uma narrativa estafada, sem novidade e onde a moderação e a razoabilidade estão, há muito, postas de parte.

Nesta eleição profundamente bipolarizada, a decisão acabará por recair sobre o candidato que melhor conseguir gerir a taxa de rejeição. Mais do que a soma de apoios ou a mobilização de novas adesões, será decisivo perceber qual dos dois candidatos conseguirá gerir de forma mais hábil os anticorpos e as resistências que atualmente se lhes opõem.

Hoje, o centro político moderado brasileiro, tanto à esquerda como à direita, desapareceu. O centro-esquerda democrático foi engolido pelas lógicas aparelhísticas de um PT subjugado ao culto da personalidade de Lula da Silva, enquanto o centro-direita foi eleitoralmente arrasado por um bolsonarismo sem visão estratégica, retrógrado no campo dos princípios e insensível à degradação das condições de vida de grande parte da população. O MDB, ainda que disponha de uma extensa rede nacional, está desorganizado. Os 4% de Simone Tebet foram endossados a Lula da Silva e o "day after" eleitoral é uma incógnita. O PSDB, por seu turno, sofreu um enorme revés ao perder São Paulo e a expectativa atual centra-se na eventual eleição de Eduardo Leite no Rio Grande do Sul e de Eduardo Riedel no Mato Grosso do Sul.

O Brasil está confrontado com uma escolha por exclusão de partes. Mais do que Lula da Silva ou Jair Bolsonaro, o país precisa urgentemente de promover a renovação da classe política dirigente e encontrar, por fim, o caminho da estabilidade e do progresso.

Jurista e gestor

QOSHE - Um Brasil bipartido - Ricardo Gonçalves Cerqueira
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Um Brasil bipartido

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24.10.2022

É um Brasil profundamente dividido aquele que no próximo dia 30 terá de tomar uma decisão quanto ao rumo que pretende seguir na próxima legislatura. Um país social e economicamente degradado que se vê, de um lado, tolhido por um populismo quase primário, baseado num assistencialismo exacerbado, protagonizado por uma cúpula política cuja ascensão se deveu a métodos pouco claros e decisões censuradas pelo poder judicial brasileiro. Contrapõe-se a isto uma direita identitária e autoritária, saudosista da ditadura militar, e que se alimenta do fervor religioso promovido pelas seitas evangélicas que proliferam um pouco por todo o país.

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