Assistimos, há umas semanas, à inaudita repreensão pública do primeiro-ministro ao presidente da Endesa por este ter antecipado um incremento dos preços da energia na ordem dos 40%. Se à data a descompostura causou alguma estranheza, hoje, perante a confirmação do aumento dos custos do gás e eletricidade, fica a certeza de que Nuno Ribeiro da Silva teve razão antes do tempo.

A EDP e a Galp justificam a recente decisão de aumento da fatura mensal com a escalada dos preços do gás nos mercados internacionais, situação que se agravou com o arrastar do conflito na Ucrânia e com os consequentes estrangulamentos e disrupções nas cadeias de abastecimento que daí advieram.

Portugal, à semelhança dos demais países europeus, está a pagar a fatura de anos de decisões erradas, que colocaram o fornecimento energético da Europa, e em particular o da Alemanha, nas mãos da Rússia. Esta circunstância impõe que se encontrem fontes alternativas que garantam o regular fornecimento de energia e que ponha fim à dependência de um único fornecedor. É um problema cuja premência escala na exata medida do aproximar da época de inverno.

Os índices europeus de cotação do gás natural vêm atingindo níveis históricos nas últimas semanas. No último trimestre, o preço por megawatt-hora (MWh) disparou dos 83€ registados no início de junho, para cerca de 242€ em agosto, um valor 11 vezes superior ao registado no período homólogo de 2021.

De forma a mitigar o impacto deste aumento, em particular no tecido empresarial e na habitação, a Comissão Europeia negociou com todos os estados-membros um acordo de redução do consumo na ordem dos 15%. No mesmo sentido, Espanha, França e Alemanha tomaram medidas extraordinárias para reduzir o consumo energético, que vão desde a diminuição das temperaturas dos termostatos, à redução da iluminação pública e à limitação do período autorizado para o uso de ar condicionado. A Suíça, por seu turno, equaciona o corte de eletricidade até quatro horas por dia e a obrigatoriedade de redução do consumo de eletricidade no setor empresarial.

Em Portugal, onde um quinto da população vive em situação de pobreza energética e o gás natural representa um quarto do cabaz energético, a prioridade dos decisores políticos não pode ser outra que não a de garantir às empresas e às famílias um fornecimento sem falhas e dentro de valores comportáveis.

*Jurista e gestor

QOSHE - Portugal a meio gás - Ricardo Gonçalves Cerqueira
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Portugal a meio gás

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06.09.2022

Assistimos, há umas semanas, à inaudita repreensão pública do primeiro-ministro ao presidente da Endesa por este ter antecipado um incremento dos preços da energia na ordem dos 40%. Se à data a descompostura causou alguma estranheza, hoje, perante a confirmação do aumento dos custos do gás e eletricidade, fica a certeza de que Nuno Ribeiro da Silva teve razão antes do tempo.

A EDP e a Galp justificam a recente decisão de aumento da fatura mensal com a escalada dos preços do gás nos mercados internacionais, situação que se agravou com o arrastar do conflito na Ucrânia e com os consequentes........

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