A defesa intransigente de valores e princípios não tem hora nem dia marcados. Não é uma questão de oportunidade, de timing, e não varia conforme a circunstância. Não há ocasião ou contexto mais ou menos adequado para salvaguardar o primado do respeito pelos direitos humanos, dos trabalhadores, das minorias, de diferentes raças ou etnias.

Em causa estão as recentes declarações de governantes, com destaque para Emanuel Macron, sublinhando, a propósito da realização do Campeonato do Mundo de Futebol, que este não é o momento adequado para tomadas de posição públicas que visem a condenação do Emirado, nem tão-pouco para manifestações de repúdio sobre o desrespeito pelos direitos humanos, o tratamento discriminatório dispensado às mulheres e a perseguição de minorias.

O tempo da reação, da revolta, da insurreição, segundo o presidente francês, o primeiro-ministro português e outros, deveria ter sido há precisamente dez anos quando, por decisão da FIFA, a organização da competição foi atribuída ao Qatar. Não agora. Não hoje. Como se a nós, cidadãos, adeptos, comunidade internacional, jornalistas ou analistas, nos restasse somente a complacência e a admissão do inadmissível. Como se fosse razoável exigir que, em 2010 ou 2012, pressentíssemos a morte de 7000 trabalhadores, antecipássemos a denegação por parte do Governo local de acesso a condições mínimas de sobrevivência ou adivinhássemos a atribuição de remunerações absolutamente indignas por jornadas de trabalho superiores a 12 horas sob calor extremo. Aí sim, seríamos dignos da voz de protesto. Hoje, em 2022, sobra-nos a resignação. O tempo de pedir contas à FIFA, às federações nacionais ou aos governos, extinguiu-se, dizem-nos. Agora, por estes dias, o que realmente conta é o chuto na bola, o apoio acrítico e seguir em frente. Pois bem, não é assim, não pode ser assim.

Este Mundial está condenado desde o primeiro dia. Condenado pela névoa de corrupção e opacidade que paira sobre um processo esdrúxulo de atribuição da organização do torneio. Condenado pelo evidente desrespeito pelos mais elementares direitos de quem contribuiu para a sua edificação. E condenado pela notória intolerância à diferença, seja ela cultural, religiosa, étnica ou relativa à orientação sexual.

Perante este quadro, exige-se coragem e clareza a quem nos governa. Presidente da República e primeiro-ministro, nas deslocações que insistem em fazer ao Qatar, não estarão em representação de si próprios nem a cumprir uma vontade pessoal de assistir a um jogo de futebol do Mundial. Estarão, isso sim, a contrariar o sentimento de milhões de portugueses, que não querem, de modo algum, estar associados à desumanidade que este campeonato representa.

*Jurista e gestor

QOSHE - Não em nosso nome - Ricardo Gonçalves Cerqueira
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Não em nosso nome

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29.11.2022

A defesa intransigente de valores e princípios não tem hora nem dia marcados. Não é uma questão de oportunidade, de timing, e não varia conforme a circunstância. Não há ocasião ou contexto mais ou menos adequado para salvaguardar o primado do respeito pelos direitos humanos, dos trabalhadores, das minorias, de diferentes raças ou etnias.

Em causa estão as recentes declarações de governantes, com destaque para Emanuel Macron, sublinhando, a propósito da realização do Campeonato do Mundo de Futebol, que este não é o momento adequado para tomadas de posição públicas que visem a condenação do Emirado, nem tão-pouco para manifestações de repúdio sobre o desrespeito pelos direitos........

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