O antigo presidente da Câmara Municipal de Caminha decidiu fazer um negócio com dinheiros públicos cujo racional não se alcança: pagou 300 mil euros adiantados em rendas a um promotor que se propôs construir um centro de exposições transfronteiriço, num investimento que totalizaria oito milhões de euros. Acresce que o promotor não tinha sequer o currículo que dizia ter. Ou seja, nunca fez nada de semelhante ao que se propõe fazer em Caminha. E assim, sem surpresa, dois anos depois do pagamento com dinheiros públicos, não há sinal de obra.

Disse, entretanto, Miguel Alves, em entrevista publicada no JN e na TSF, que, quando decidiu avançar com o negócio, tinha a "noção do risco". E acrescentou que não é "um bandido, nem um tolo". Na verdade, ninguém o acusou de ser nem uma coisa, nem outra. Da mesma forma que não se detetou, ao contrário do que disse, qualquer preconceito relativamente a Caminha ou à sua origem enquanto autarca. Sendo verdade que há uma corte em Lisboa que vive à custa do país real, invocar o centralismo a propósito deste caso é despropositado. Depois de ter sido criticado pela demora a dar explicações, ao dá-las foi pior a emenda que o soneto.

Quanto aos riscos, Miguel Alves parece não ter compreendido o que está em causa. Se continuasse a ser "apenas" o presidente da Câmara de Caminha, as dúvidas legítimas que fossem levantadas sobre o negócio só o afetariam a ele. Sucede que já não é presidente de uma autarquia, passou a ser secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro. Está no centro do poder executivo. O que fez e o que diz não o afetam apenas a ele. Afetam o Governo. E em particular António Costa. Mesmo que o primeiro-ministro faça de conta que é só um caso sem importância. Ninguém quer ver replicado o modelo de negócio do pavilhão de Caminha no resto do país. Para rendas, já bastaram as das PPP. As qualidades que Miguel Alves possa ter já não assumem qualquer importância. Passou a ser um ativo político tóxico.

Diretor-adjunto

QOSHE - Um ativo tóxico - Rafael Barbosa
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Um ativo tóxico

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09.11.2022

O antigo presidente da Câmara Municipal de Caminha decidiu fazer um negócio com dinheiros públicos cujo racional não se alcança: pagou 300 mil euros adiantados em rendas a um promotor que se propôs construir um centro de exposições transfronteiriço, num investimento que totalizaria oito milhões de euros. Acresce que o promotor não tinha sequer o currículo que dizia ter. Ou seja, nunca fez nada de semelhante ao que se propõe fazer em Caminha. E assim, sem surpresa, dois anos depois do pagamento com........

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