"O que vem aí é mau", disse, há dias, o presidente da República. Um alerta oportuno, quando a inflação empobrece tanta gente e no horizonte se desenha uma recessão, com a consequente destruição de emprego e de vidas. Mas, na verdade, o alerta de Marcelo Rebelo de Sousa peca por defeito. Esquece que o que temos já é mau. E que, portanto, o que vem aí é pior. Usar o grau comparativo de superioridade só parecerá excessivo a quem não tenha reparado que foi publicado, há poucos dias, o último relatório do Eurostat sobre o risco de pobreza e exclusão social.

Vale a pena destacar quatro factos que constam desse relatório. O primeiro, que o nosso país piorou a sua posição relativa na União Europeia (de 13.o para o 8.o pior lugar), o que significa que em pelo menos cinco países europeus que tinham mais pobres do que nós se aplicaram políticas económicas e sociais mais eficazes do que as nossas. O segundo, que se quebrou um ciclo de pelo menos cinco anos de redução da pobreza. O terceiro, que se somaram 256 mil pobres em 2021, chegando o contingente de deserdados aos 2,3 milhões de pessoas, ou seja, mais de um quinto da população residente. O quarto, que 11,2% dos trabalhadores são pobres, o que nos diz alguma coisa sobre os salários que se pagam por aqui.

Não se julgue, no entanto, que é um problema específico de Portugal. Que é apenas culpa de Costa, ou de Passos antes dele, para não ir mais longe. Os nossos governos devem de ser responsabilizados e julgados pelas suas opções políticas e económicas. Mas não devemos esquecer que vivemos num mundo global e desigual em que 1% de privilegiados controlam 46% da riqueza, como se lê no mais recente relatório do Crédit Suisse. Uma desigualdade destrutiva no regime capitalista norte-americano (39% dos milionários vivem nos EUA) como no regime comunista chinês (10% do total de milionários vivem na China). Uma desigualdade que permite que morra uma pessoa de fome a cada quatro segundos, de acordo com uma carta aberta dirigida aos líderes reunidos na Assembleia Geral das Nações Unidas. O Mundo que temos é mau. O que vem aí é capaz de ser pior.

*Diretor-adjunto

QOSHE - O que vem aí é... pior - Rafael Barbosa
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O que vem aí é... pior

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21.09.2022

"O que vem aí é mau", disse, há dias, o presidente da República. Um alerta oportuno, quando a inflação empobrece tanta gente e no horizonte se desenha uma recessão, com a consequente destruição de emprego e de vidas. Mas, na verdade, o alerta de Marcelo Rebelo de Sousa peca por defeito. Esquece que o que temos já é mau. E que, portanto, o que vem aí é pior. Usar o grau comparativo de superioridade só parecerá excessivo a quem não tenha reparado que foi publicado, há poucos dias, o último relatório do Eurostat sobre o risco de........

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